Tuesday, December 19, 2006

SIM


Fala-se da vida, de direito à vida, de vidas inocentes.

Eu diria então que são os argumentos do lado da fora da esfera. Porque a verdade é que existem sempre várias formas de olhar uma questão.

Vida. De quem? Da mãe ou do feto? Ou dos dois?

É que uma mãe mal informada, com medo de ser presa, como medo de não ter dinheiro para um aborto medicamente assistido, com medo da vida e do que a vida lhe acabou por trazer…Uma mãe destas, que lhe passará pela cabeça? Em que pensará ela?

Que acham que esta mãe assustada, sozinha, em sofrimento, vai fazer?... Vai muito dignamente enfrentar o seu destino e ter o seu filho? Enfrentar o facto de o ter de doar, de querer ficar com ele, para depois não o poder ter? Para não poder comprar as fraldas, para não lhe poder dar o leite?... E será que queria de facto ter um filho?... E não querendo, que acham que uma mãe faz?

Quantos de vocês desse lado já foram “mães”?

E a vergonha?...Os pais ausentes e inquisidores?

Que acham que ela vai fazer? Enfrentar a punição, o despeito, a reprovação pelo que “fez de mal”?

E será que fez alguma coisa de mal?

E se não fez, porque tem ela medo e vergonha?

Qual é o problema?

Não deveria ela saber que ter um filho é óptimo, mas que trazer uma vida a este mundo encerra responsabilidade, deveres, sacrifícios?

E se não sabia, porque não lhe disseram?

Deve ser condenada a sucumbir ao medo e a tudo o resto e abortar num vão de escada obscurecido? O resultado não é o mesmo pois não?

Não deveria ela saber?

Se não sabia, quem falhou?

E não deverá ela dar à vida uma segunda oportunidade?

E nós?

Será melhor prendê-la? Ou ajudá-la?

Devemos dizer Não, não podes, porque erraste, e por isso deves pagar?...Ou Sim, podes, porque erramos todos e deves voltar a sonhar?...



Albatroz, 2006

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