Resumo 2006 - Parte 1 : O meu ano

“O Fim das Utopias”
Foi o ano de vários fins avulsos, caminhadas pelo deserto, redefinições, insónias e anti-inflamatórios. Um ano para esquecer.
O ano em que fantasmas antigos regressaram em força. Assombrações travestidas mas reconhecidas. Coisas familiares que julgava desaparecidas.
- Terminei uma relação longa (?) de 3 anos, mas rapidamente descobri que várias outras coisas também terminaram para mim: Algumas utopias que afinal nunca existiram, que eu imaginei com muita força, pois queria que fossem reais. Mas eram piores do que uma miragem. Foi tempo de virar a página.
- A nível profissional foi a derrocada de um projecto cheio de fendas, que nasceu torto, fruto da pressa de aranjar emprego e da necessidade de não ficar de fora . Passado algum tempo descobri o engano: Nunca me disseram sequer que “talvez”, a minha foto nunca surgiu no organigrama, nunca me senti a pertencer, fui sempre um outsider, desmotivei-me sem perceber. No final disseram que cheirava a mofo. Gostei do cinismo.
- Foi o ano das dores: Dores de dentes, dores de barriga, dores de coração. Os dentes, esse demónio antigo que regressa ciclicamente, desta vez excedeu-se no sadismo. Foram noites de dores profundas e latejantes, de desesperos parvos e sem sentido. Um ano de piscinas de antibióticos com nomes medonhos : “ Zoroflex”, “Clavamox”… O ano das pastilhas de cor branca, das ampolas e dos efevercentes, das contra-indicações e dos efeitos secundários. Dores de dentes que eram combatidas com dores de barriga, dores de barriga que eram efeito das pastilhas para as dores de dentes. Uma confusão masoquista, um auto-enrrabanço não lubrificado que acabou por me foder todo.
- O ano das depressões. Incompreendido, sem me compreender, triste, preocupado, pessimista, desmotivado, desesperado. Fechei-me. Nem as lágrimas já tinham a força de outros tempos. Baixei os braços. Senti o peso das coisas. Nem sequer quis ser ajudado e não me apeteciam os discursos do costume. As palmadinhas nas costas. O “a vida é assim” e essas merdas…Já para o fim, tive uma psi na minha frente a tentar falar da minha vida e a arriscar me perceber. Falou-me de erros, de acreditar, da minha idade, de amores à distância e outros filmes trágico-comicos. Depois, tratou-me à moda dentária: Uma pastilhazita que deveria ser tomada todos os dias depois do jantar, sem esquecer. Resignei-me. Que se foda, pior não fico.
- Pelo meio da escuridão, um postigo de luz. Uma mão que se me estendeu. Improvável. Um anjo quase poético. Alguém que me obriga a acreditar e a sonhar tudo de novo. Que obriga a obrigar-me. Que me devolveu o que se perdeu pelo caminho. Que me apanhou do chão e teve a paciência infinita de colar os cacos.
Foi o ano do fim das ilusões. O ano dos enganos e das dores.
Um dos piores da minha vida.
Albatroz, 2006


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