Tuesday, December 05, 2006

A Cave


Lentamente, desço a escada até à cave poeirenta e mal iluminada.

Lá em baixo, um certo cheiro a mofo, a esquecimento.

Aproximo-me devagar de um vulto meio submerso nas sombras.

“ Pára onde estas !”, disse-me uma voz um pouco familiar.

O vulto moveu-se e vi uma mão emergir das sombras. E por entre os dedos, uma massa amorfa e ensanguentada, pulsante…

“ Pertence-te?”, perguntou a voz.

Num gesto um pouco desconexo e inexplicável, tomei entre as mãos aquela mole viva que se contorcia nela própria numa forma indefinida.

Percebi então que o vulto tinha desaparecido.

Achei-me sozinho naquela cave poeirenta e fétida. E fiquei subitamente cheio de medo.

O coração entre as minhas mãos bateu mais depressa.

Timidamente, coloquei-o na fenda aberta no meu peito.

E as sombras engoliram-me.

No cimo das escadas, a porta da cave abriu-se e um vulto descia por elas pesadamente.

Alguém de alguma forma familiar….



Albatroz, 2006

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