A Cave

Lentamente, desço a escada até à cave poeirenta e mal iluminada.
Lá em baixo, um certo cheiro a mofo, a esquecimento.
Aproximo-me devagar de um vulto meio submerso nas sombras.
“ Pára onde estas !”, disse-me uma voz um pouco familiar.
O vulto moveu-se e vi uma mão emergir das sombras. E por entre os dedos, uma massa amorfa e ensanguentada, pulsante…
“ Pertence-te?”, perguntou a voz.
Num gesto um pouco desconexo e inexplicável, tomei entre as mãos aquela mole viva que se contorcia nela própria numa forma indefinida.
Percebi então que o vulto tinha desaparecido.
Achei-me sozinho naquela cave poeirenta e fétida. E fiquei subitamente cheio de medo.
O coração entre as minhas mãos bateu mais depressa.
Timidamente, coloquei-o na fenda aberta no meu peito.
E as sombras engoliram-me.
No cimo das escadas, a porta da cave abriu-se e um vulto descia por elas pesadamente.
Alguém de alguma forma familiar….
Albatroz, 2006


0 Comments:
Post a Comment
<< Home