Friday, December 29, 2006

Resumo 2006 - Parte 2 : O meu país


“A Republica das Bananas”

Em Portugal, tudo normal. O submarino segue desgovernado, cruzando um oceano de escandaleiras, de cagadas desconexas e outras vergonhas. Foi por isso o ano da confirmação. Da confirmação do clientelismo, do atraso, do desemprego, do desnorte.

No final, salvaram-se os suspeitos do costume e a jangada de pedra continua a meter água.

Personalidade Nacional do Ano : José Sócrates – O Timoneiro aguenta firme o leme e resiste a várias tormentas. Prometeu baixar os impostos e até as SCUTS vamos pagar, prometeu combater o desemprego e o desemprego aumentou, prometeu isto e aquilo, mas nem isto nem aquilo, nada mesmo. Positivo foi o combate sem tréguas ao crime económico, na ânsia descontrolada de arranjar receitas que ressuscitem o morto, mas fica a sensação que combateu moinhos de vento e que no final ficarão as intenções, mas talvez se abra o precedente, nunca se sabe. Inovjovens, Simplexs, e outras merdas, todos nos habituamos a este palavreado pseudo-tecnocrata de gente dinâmica que no final desenha elipses que voltam ao mesmo e não fazem um corno, mas são de louvar as intenções. Um timoneiro bem intencionado que acaba o ano em alta e com o eleitorado rendido, à falta de melhor. Isto porque a direita se afunda na sua profunda anorexia ideológica e a esquerda acorda do seu sono prolongado.

Acontecimento Nacional do Ano: O Fecho da General Motors da Azambuja – Triste sina a deste país que não controla o monstro endémico do desemprego. Na Azambuja desenhou-se o drama que todos envergonhou, nem o governo disfarçou o incómodo e a tristeza. Fica aquela sensação de impotência, de descrédito, de que algo vai mal, muito mal mesmo. Olhamos os olhos daquela gente e estranhamento nos reconhecemos. Já não os vemos como gente distante. Sentimos um laço, algo de familiar. Temos muita dificuldade em compreender este mundo e porque “tem de ser assim”. Sentimos revolta, mas quem devemos combater? Queremos ajudar, mas como? Será que tem mesmo de ser assim? E se tem…porque razão? …

Foi o ano do apito dourado, do fim de Souto Moura, do principio de Manuel Alegre, do Cavaco Reloaded, do Cavaco Incorporated, da confirmação do Bloco de Esquerda, do eclipse do PP, da reentrada de Maria Morgado, da implosão de Barroso, dos livros do Professor, das calorias dos Morangos com Acucar, dos olhos da Luciana Abreu, do circo do Alberto João, do Scolari e do FCP, dos casais na forca do crédito, do livro de Carrilho, da fruta, do Gato Fedorento e da Tragédia do Rivoli, de Mourinho, da selecção Nacional e de um nome : Cristiano Ronaldo.

Mais um ano na republica das bananas, nada de especial a registar, siga a rusga.

Over and out.


Albatroz, 2006

Thursday, December 28, 2006

Resumo 2006 - Parte 1 : O meu ano


“O Fim das Utopias”

Foi o ano de vários fins avulsos, caminhadas pelo deserto, redefinições, insónias e anti-inflamatórios. Um ano para esquecer.

O ano em que fantasmas antigos regressaram em força. Assombrações travestidas mas reconhecidas. Coisas familiares que julgava desaparecidas.

- Terminei uma relação longa (?) de 3 anos, mas rapidamente descobri que várias outras coisas também terminaram para mim: Algumas utopias que afinal nunca existiram, que eu imaginei com muita força, pois queria que fossem reais. Mas eram piores do que uma miragem. Foi tempo de virar a página.

- A nível profissional foi a derrocada de um projecto cheio de fendas, que nasceu torto, fruto da pressa de aranjar emprego e da necessidade de não ficar de fora . Passado algum tempo descobri o engano: Nunca me disseram sequer que “talvez”, a minha foto nunca surgiu no organigrama, nunca me senti a pertencer, fui sempre um outsider, desmotivei-me sem perceber. No final disseram que cheirava a mofo. Gostei do cinismo.

- Foi o ano das dores: Dores de dentes, dores de barriga, dores de coração. Os dentes, esse demónio antigo que regressa ciclicamente, desta vez excedeu-se no sadismo. Foram noites de dores profundas e latejantes, de desesperos parvos e sem sentido. Um ano de piscinas de antibióticos com nomes medonhos : “ Zoroflex”, “Clavamox”… O ano das pastilhas de cor branca, das ampolas e dos efevercentes, das contra-indicações e dos efeitos secundários. Dores de dentes que eram combatidas com dores de barriga, dores de barriga que eram efeito das pastilhas para as dores de dentes. Uma confusão masoquista, um auto-enrrabanço não lubrificado que acabou por me foder todo.

- O ano das depressões. Incompreendido, sem me compreender, triste, preocupado, pessimista, desmotivado, desesperado. Fechei-me. Nem as lágrimas já tinham a força de outros tempos. Baixei os braços. Senti o peso das coisas. Nem sequer quis ser ajudado e não me apeteciam os discursos do costume. As palmadinhas nas costas. O “a vida é assim” e essas merdas…Já para o fim, tive uma psi na minha frente a tentar falar da minha vida e a arriscar me perceber. Falou-me de erros, de acreditar, da minha idade, de amores à distância e outros filmes trágico-comicos. Depois, tratou-me à moda dentária: Uma pastilhazita que deveria ser tomada todos os dias depois do jantar, sem esquecer. Resignei-me. Que se foda, pior não fico.

- Pelo meio da escuridão, um postigo de luz. Uma mão que se me estendeu. Improvável. Um anjo quase poético. Alguém que me obriga a acreditar e a sonhar tudo de novo. Que obriga a obrigar-me. Que me devolveu o que se perdeu pelo caminho. Que me apanhou do chão e teve a paciência infinita de colar os cacos.

Foi o ano do fim das ilusões. O ano dos enganos e das dores.

Um dos piores da minha vida.


Albatroz, 2006

Tuesday, December 26, 2006

X = + infinito


As pessoas são relativas.

E tudo nelas também é relativo.

O amor, os sonhos, a felicidade, as promessas incumpridas...

Tudo relativo.

Frases como “ Serás minha /a para sempre”, são sempre relativas. Como diria alguém: depende da escala de tempo, dos referenciais…depende, enfim, de muita coisa.

Muito poucas certezas e o nevoeiro do costume: Neste mundo somos como uma partícula solitária nas margens de um átomo que nos esmaga, somos incertos por princípio, indefinidos na definição.

Não existe cálculo que nos possa calcular, não temos principio nem fim, podemos ser, não sendo. Somos confusos.

E o que somos agora, é provável que não sejamos amanhã.

Percebem não percebem? Eu sei que sim.

E por isso é que somos uns acagaçados do caralho. Porque nos queremos compreender.

Fazemos uma montanha de perguntas, na tentativa vã de escrevermos a equação que nos define a nós mesmos e ao outro.

Olhamos nos seus olhos na busca da solução, mas rapidamente parámos a meio das contas quando percebemos que somos nós a incógnita.

Uma inequação estúpida, sem sentido, cuja solução é x igual a mais infinito. Uma piada aberrante, um erro.

Se somos matéria, somos Física.

Uma Física paradoxal e se calhar impossível de ser entendida por nós, o objecto de estudo.

Talvez um dia um ser de outro planeta nos descubra e estude…

Escreve duas ou três equações diferenciais cuja resolução encha duas ou três páginas A4 de continhas bonitas e outros sarrabiscos.

Esperemos é que no fim…

X seja igual a alguma coisa.


Albatroz, 2006

Friday, December 22, 2006

Algo que eu nunca poderei ter...




"Something I Can Never Have"

I still recall the taste of your tears.
Echoing your voice just like the ringing in my ears.
My favorite dreams of you still wash ashore.
Scraping through my head 'till I don't want to sleep anymore.

[Chorus:]
You make this all go away.
You make this all go away.
I'm down to just one thing.
And I'm starting to scare myself.
You make this all go away.
You make this all go away.
I just want something.
I just want something I can never have

You always were the one to show me how
Back then I couldn't do the things that I can do now.
This thing is slowly taking me apart.
Grey would be the color if I had a heart.

Come on tell me

[Chorus]

In this place it seems like such a shame.
Though it all looks different now,
I know it's still the same
Everywhere I look you're all I see.
Just a fading fucking reminder of who I used to be.

Come on tell me

[Chorus]

I just want something I can never have


Nine Inch Nails "Pretty Hate Machine"


Albatroz, 2006

Wednesday, December 20, 2006

A Força da Natureza



albatroz, 2006

Tuesday, December 19, 2006

SIM


Fala-se da vida, de direito à vida, de vidas inocentes.

Eu diria então que são os argumentos do lado da fora da esfera. Porque a verdade é que existem sempre várias formas de olhar uma questão.

Vida. De quem? Da mãe ou do feto? Ou dos dois?

É que uma mãe mal informada, com medo de ser presa, como medo de não ter dinheiro para um aborto medicamente assistido, com medo da vida e do que a vida lhe acabou por trazer…Uma mãe destas, que lhe passará pela cabeça? Em que pensará ela?

Que acham que esta mãe assustada, sozinha, em sofrimento, vai fazer?... Vai muito dignamente enfrentar o seu destino e ter o seu filho? Enfrentar o facto de o ter de doar, de querer ficar com ele, para depois não o poder ter? Para não poder comprar as fraldas, para não lhe poder dar o leite?... E será que queria de facto ter um filho?... E não querendo, que acham que uma mãe faz?

Quantos de vocês desse lado já foram “mães”?

E a vergonha?...Os pais ausentes e inquisidores?

Que acham que ela vai fazer? Enfrentar a punição, o despeito, a reprovação pelo que “fez de mal”?

E será que fez alguma coisa de mal?

E se não fez, porque tem ela medo e vergonha?

Qual é o problema?

Não deveria ela saber que ter um filho é óptimo, mas que trazer uma vida a este mundo encerra responsabilidade, deveres, sacrifícios?

E se não sabia, porque não lhe disseram?

Deve ser condenada a sucumbir ao medo e a tudo o resto e abortar num vão de escada obscurecido? O resultado não é o mesmo pois não?

Não deveria ela saber?

Se não sabia, quem falhou?

E não deverá ela dar à vida uma segunda oportunidade?

E nós?

Será melhor prendê-la? Ou ajudá-la?

Devemos dizer Não, não podes, porque erraste, e por isso deves pagar?...Ou Sim, podes, porque erramos todos e deves voltar a sonhar?...



Albatroz, 2006

Monday, December 11, 2006

A Mentira


O Marine limpou a custo o pó do seus óculos de plástico made in china. E rastejou penosamente pelo entulho de cascalho escaldante, enquanto atrás de si um cogumelo de fumo negro como a noite inchava lento no céu azul do fim de tarde.

Foi com terror que percebeu que estava ferido.

Mesmo abaixo da cintura, abria-se uma trincheira terrível feita de carne dilacerada e queimada, de onde jorrava a cascata do seu sangue.

O seu sangue que tingia de vermelho aquela terra amarelada, queimada de napalm.

A sua vida que se lhe escapava lenta, e invadia aquele chão maldito, amaldiçoado.

Por uma guerra que nunca foi questionada. Que tinha de ser.

Made in USA.

Uma guerra obviamente perdida, idiota.

Feita de mentiras.

E a verdade morria agora com ele.

Os gritos…O cheiro a carne queimada…Os tiros…O som das bombas….as sirenes.

E o cogumelo de morte invadindo o céu azul.

albatroz, 2006

O Anjo da Morte


No seu reino foram mortos e torturados milhares de chilenos.

Violadas milhares de mulheres em calabouços fétidos, amordaçadas, ensanguentadas…

Anos depois, em ruas pejadas de gritos e desespero, formaram-se filas infinitas de mães de desaparecidos, rostos anónimos pintados em cartazes.

Mas o mundo esquece e faz de conta.

Esquece o anjo da morte, perdoa os que o patrocinaram.

Os mesmos de outras guerras, noutros cenários.

Os “campeões da liberdade”.


albatroz, 2006

Tuesday, December 05, 2006

A Cave


Lentamente, desço a escada até à cave poeirenta e mal iluminada.

Lá em baixo, um certo cheiro a mofo, a esquecimento.

Aproximo-me devagar de um vulto meio submerso nas sombras.

“ Pára onde estas !”, disse-me uma voz um pouco familiar.

O vulto moveu-se e vi uma mão emergir das sombras. E por entre os dedos, uma massa amorfa e ensanguentada, pulsante…

“ Pertence-te?”, perguntou a voz.

Num gesto um pouco desconexo e inexplicável, tomei entre as mãos aquela mole viva que se contorcia nela própria numa forma indefinida.

Percebi então que o vulto tinha desaparecido.

Achei-me sozinho naquela cave poeirenta e fétida. E fiquei subitamente cheio de medo.

O coração entre as minhas mãos bateu mais depressa.

Timidamente, coloquei-o na fenda aberta no meu peito.

E as sombras engoliram-me.

No cimo das escadas, a porta da cave abriu-se e um vulto descia por elas pesadamente.

Alguém de alguma forma familiar….



Albatroz, 2006