Monday, September 25, 2006

Explica-me


Explica-me lá isto como se eu tivesse 5 anos.

A razão porque desespero em silêncio, engasgado de palavras sem sentido.

Explica-me o dragão em chamas que ronrona baixinho a alvorada do novo milénio, enquanto nas areias movediças do deserto se afundam as convicções das economias globais.

Tudo falhou, afinal.

Da ilusão, resta e evidência.

Do mundo sem pobreza, os pobres e os desempregados.

Explica-me lá isto como se eu tivesse 5 anos…

A razão pela qual nos ensinaram uma vida toda que as guerras são más e não resolvem nada, para depois nos dizerem que são a única solução.

A razão obscura porque a globalização é uma “coisa boa”, se os pobres vão continuar pobres para serem competitivos e os ricos ainda mais ricos, para tudo fazer sentido.

Porque se fala em mercado e não em pessoas…

O mecanismo deste mundo que roda sem parar ate ficarmos zonzos.

Até vomitarmos enjoados.

Explica-me, como se tivesse nascido ontem, esta sensação de queda livre e falta de ar.

Explica-me como se não soubesse de nada.

Como se tudo isto fosse uma novidade.

Mas vai devagar, para ver se percebo.


Albatroz, 2006

Friday, September 15, 2006

Depois, após e durante



Depois dos ventos, depois das chamas, das bombas, dos gritos e dos ódios remoídos.

Depois de perdidos os sonhos, de morta a esperança, depois de o sol deixar de brilhar e o mundo de existir ou fazer sentido.

Depois de perceber que interessa ser bonito, ter a pila maior, chegar antes e ter medo de chegar tarde, de perder ou ganhar, de ser ou de poder vir a ser, depois de agora não ser nada, e nada ser o que sou, depois do que fui.

Depois de perceber que a ninguem importam ou interessam as minhas palavras, de perceber que podia ter sido mas não fui, que podia ter tido, mas não tenho.

Depois de tudo, depois de tudo ter acabado, e começado...

Depois das reticências, depois das palavras sem açentos, depois das mulheres que me detestaram, sem eu saber porquê, depois das que amei, sem saber como.

Depois de não me quererem, de me quererem assim-assim, depois das palavras que não queria ouvir, depois das lágrimas...

Depois de não me achar nada de especial, nada que requeira um segundo olhar ou uma opinião, depois de ser nada, nada de especial, depois de ser “interessante”, depois de me achar um pote de merda fétida...depois das moscas me terem provado e gostado.

Depois de ter nascido, e durante a primeira foda mal dada, depois da minha 2º vez...

Depois daquele exame, depois de me terem olhado com aqueles olhos, depois de me terem exigido tudo, e de depois me teram dado nada...

Depois do meu pai, durante a minha mãe e após alguém que disse que me queria para sempre.

Depois dos dinossauros, antes do cometa.

Depois dos meus sonhos, durante as desilusões e após as noites em que chorei sem ninguém saber.

Depois das que me “riscaram”, depois das mensagens escritas em jeito de despedida, depois de me terem ferido e me abandonado...

Depois de ter chorado outra vez, após ter gritado de raiva, e ter a certeza que ninguém ouviu.

Depois de não me fazer entender, nem querer...Com medo que me percebam e se riam.

Depois de feitas as contas, voltar ao mesmo. Noves fora nada, nada de especial.

Depois destas frases soltas e inuteis.

Depois desta noite.

Depois acordo e volto a sonhar tudo de novo.

Depois de mim, depois das lágrimas, depois dos beijos, dos abraços, dos sonhos, das ilusões, das mentiras, de ter sido sem querer, de ter querido ter sido, de não ter conseguido.

Depois de ter nascido, durante o tempo em que vivo, após te ter conhecido.

Depois, tudo finalmente faz sentido.

Tudo é assim, porque tem de ser.

Depois de mim e durante o tempo em que sou.


albatroz, 2006

Wednesday, September 13, 2006

O Meu Dia

Se tiveres algo para me dizer, diz...

Se me quiseres amar, não te esqueças de o fazer...

Se me quiseres oferecer um presente, oferece-me um novo sonho para eu sonhar...

Á noite, dá-me um beijinho de despedida e passa-me a mão na testa.

Faço anos todos os dias.



albatroz 2006

Saturday, September 09, 2006

Sol



Sol

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito,
nove, fora

Todos esperam pela luz
sem medo, não tenham medo
o sol brilha nos meus olhos
não se irá pôr hoje
e o mundo conta alto até dez

Um
Aí vem o sol
Dois
Aí vem o sol
Três
É a estrela mais brilhante de todas
Quatro
Aí vem o sol

O sol brilha nas minhas mãos
pode queimar, pode-vos cegar
quando sai dos meus punhos
espalha-se ardentemente pela face
não se irá pôr hoje
e o mundo conta alto até dez

Um
Aí vem o sol
Dois
Aí vem o sol
Três
É a estrela mais brilhante de todas
Quatro
Aí vem o sol
Cinco
Aí vem o sol
Seis
Aí vem o sol
Sete
É a estrela mais brilhante de todas
Oito, nove
Aí vem o sol

O sol brilha nas minhas mãos
pode queimar, pode cegar
quando sai dos meus punhos
espalha-se ardentemente pela face
espalha-se dolorosamente pelo peito
o equilíbrio perde-se
atira-te com força contra o chão
e o mundo conta alto até dez

Um
Aí vem o sol
Dois
Aí vem o sol
Três
É a estrela mais brilhante de todas
Quatro
E nunca cairá do céu
Cinco
Aí vem o sol
Seis
Aí vem o sol
Sete
É a estrela mais brilhante de todas
Oito, nove
Aí vem o sol


Rammstein, 2005

Thursday, September 07, 2006

O Mestre


Aproxima-se o 11 de Setembro, a data que invoca horrores e equívocos.

Os equívocos de quem pensa que o mundo é corporativo, vendido, sincopado por uma hegemonia fantasmagórica de um gabinete em Washinton , e que por isso se basta a ele mesmo, se suporta, visto que as pessoas, os povos, são a carta fora do baralho.

Devemos pois pôr as cartas encima da mesa e jogar limpo. E recordar os tempos em que o Mestre ia para a televisão, colérico, defender o brandir das espadas contra a nação árabe demoníaca.

Degolar sem piedade o eixo do mal, a trincheira sangrenta deste mundo enlouquecido por terroristas irracionais e loucos, e não por povos desesperados, pobres, perseguidos e ignorados.

E o mestre, no seu ar magnânimo, tal como César, profetizou o estabelecimento da ordem, o “mal menor”, o bem que nos ia fazer a todos o fim do regime de Sadam, o quanto isso iria contribuir para a paz na região, para a paz no mundo, para nós todos, as pessoas. E para os Iraquianos , já me esquecia.

O Mestre disse. O Mestre sabe.

Volvido algum tempo depois da profecia, percebe-se que o Mestre se confundiu.

No Iraque morrem 3000 pessoas por dia, não parece muito libertado.

Na “região” ocorrem guerras que auguram outras tragédias.

Em Madrid e em Londres aconteceu a vingança.

E o mundo está na mesma, senão pior.

Mas uma coisa talvez tenha ocorrido: Percebemos todos a mentira que nos foi vendida.

Percebemos que não existiam armas nenhumas, que o Rumsfelt é administrador da empresa que mais lucra com a guerra, que as tropas da liberdade também torturam, que afinal também são terroristas à sua maneira e que tudo aquilo pouco mais foi do que um banho de sangue, uma bolha de ódio espremida devagar, vertendo as sementes de uma vingança árabe que pouco vai tardar.

E por isso desconfiamos…

Desconfiamos que afinal…Afinal os bons não são bem bons, e os maus não são bem maus.

Percebemos o obvio.


Percebemos que o Mestre estava enganado.


albatroz, 2006

Friday, September 01, 2006

A vida não vem com manual de instruções


No shopping, os rios de gente.

Gente que se amontoa nas montras, entreolhando-se nos corredores.

Sorrisos e rostos vazios. Faces ausentes.

E o rosto de quem tem uma arma carregada encostada á cabeça...

Não sabem bem porquê...mas fazem.

Não percebem porque razão, mas “tem de ser” .

Não entendem como, mas aconteceu-lhes.

A vida não vem com manual de instruções....

E existe sempre aquele sentimento, aquela comichão miudinha...

A impressão de que não contamos.

Que precisamos mas não temos, ou sonhamos sem sentido.

Que fugimos, sem saber de quê.

Que choramos lágrimas que são sempre inúteis.

Que gritamos sempre em silêncio.

E que no fim, depois de tudo…

Tudo foi para nada.



Albatroz, 2006