O Carbono aprendeu a sonhar

À uns milhões de anos atrás, um macaco qualquer, indiferenciado, desajeitado e indefeso, deu começo a algo.
Mal sabia ele o que a natureza lhe tinha reservado.
O capitulo final na fábula da matéria que ganhou consciência.
Pois ele era a massa amorfa de carbono e água, que pulsou por fim de vida. A rocha que se transmutou numa coisa que se interroga, que questiona, que absorve, que se deslumbra. O sonho impossível do átomo teimoso que insistiu em se transcender, unindo-se, agregando-se, replicando-se.
Ele era o Carbono obtuso e frio, inerte, que venceu a sua própria condição e que se olhava agora, assombrado, reflectido numa poça de água à muitos milhões de anos atrás, num planeta distante no tempo, dominado por lagartos pavorosos e insectos carnívoros.
Mas a rocha que se interroga, que se questiona, leva contudo a vantagem da inteligência. A arma absoluta, o desígnio da matéria e da natureza: a sua própria consciência. E foi como um rastilho ardendo pela estrada do tempo, que nunca mais nada consegiu deter.
O macaco, a rocha, o átomo, pareceu sorrir enquanto olhava a sua imagem trémula na poça de água.
Talvez tenha percebido nesse momento que o seu mundo nunca mais seria o mesmo.
Mais à frente, haveria de transformar o planeta.
Rabiscar equações sobre o universo.
E sonhar, olhando as estrelas.
Albatroz, 2006


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