Friday, August 18, 2006

A arma carregada encostada à cabeça


Este é um mundo feito de empresas, de marcas, de cifras electrónicas numa rua estranha de Nova York. E têm à sua frente uma corja envelhecida de tecnocratas, que adoram falar na juventude, mas que sempre que podem os põem a pagar esta factura infindável de pertencermos sem contarmos.

E esta sensação de dispensa começa a germinar uma revolta miudinha….Uma raiva perniciosa que já estalou em França e que alastra lentamente por todo o lado.

Uma coisa incontrolável porque difusa…inconcreta. Como um conceito ou pensamento.

Algo que nasce deste sentimento estranho de que não contamos, que somos a carta fora do baralho, que somos um fardo, uma linha obliqua, um encargo.

De que não fazemos parte ou somos ausentes.

De que fomos dispensados de um mundo que apenas nos suporta sem valor acrescentado.

Despedidos com justa causa de um planeta super-lotado de fome, de miséria, de guerras insanas, de ódios antigos que se reeditam sem fim, numa melodia triste e melancólica que nos hipnotiza em frente à televisão.

E no final do dia, adormecemos amedrontados, confusos, com as nódoas negras da vida que acumulamos sem perceber bem porquê.

Amamos sem efeito.

Pensamos, mas não sabemos para quê.

Sonhamos, mas sabemos que o nosso destino à muito foi traçado.

Somos a ovelha branca perdida no meio da manada, à espera da tosquia...

E temos uma arma carregada encostada à cabeça e uma voz que nos manda comer.

Albatroz, 2006

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