Piloto Automático

Não obstante o facto de me achar absoluta e completamente desinteressante como homem, não obstante ter a nítida sensação que vocês todos se estão irrevogavelmente a cagar para mim.
Não descorando que vivo num país em piloto automático, em rota de colisão e sem pára-quedas a bordo.
Um país em que o “Caos na Liga” abre o telejornal e se esquece o “Caos na vida do Português”. O mesmo país onde o salário mínimo é o mais baixo da Europa e onde o desemprego entre os jovens qualificados não para de aumentar.
E não obsto à pergunta: “ Apostar no futuro, tendo milhares de jovens com qualificações superiores sem ter onde trabalhar?”
Resposta: “ É pá, caga.”
É pá não. É pá isto começa a ser uma piada do Rocha.
Matunbina chega pra cá o pacoti! Faz di contá que tu é Portugá cárálhu!
Chegó quê? Vaia masé prós Médios Orientes caralhu. Limpar a merda que Israel deixô.
Não obstante, obsto.
É pá, obsto!
Tiro o macaco do nariz e interrogo-me: “ Se os jovens desempregados não votassem, se as mulheres despedidas das fábricas de confecções se recusassem a fazer o comer, se os palestinianos, os Sírios, os Iranianos e os Jordanos invadissem todos ao mesmo tempo Israel, se os pobres nos EUA começassem a votar e se eu importasse para alguma coisa…então aí sim: Isto estava mesmo tudo fodido!”.
Assim , não…
Assim, é pá, vamos indo e vamos vendo.
Albatroz, 2006.






