Tuesday, August 29, 2006

Piloto Automático


Não obstante o facto de me achar absoluta e completamente desinteressante como homem, não obstante ter a nítida sensação que vocês todos se estão irrevogavelmente a cagar para mim.

Não descorando que vivo num país em piloto automático, em rota de colisão e sem pára-quedas a bordo.

Um país em que o “Caos na Liga” abre o telejornal e se esquece o “Caos na vida do Português”. O mesmo país onde o salário mínimo é o mais baixo da Europa e onde o desemprego entre os jovens qualificados não para de aumentar.

E não obsto à pergunta: “ Apostar no futuro, tendo milhares de jovens com qualificações superiores sem ter onde trabalhar?”

Resposta: “ É pá, caga.”

É pá não. É pá isto começa a ser uma piada do Rocha.

Matunbina chega pra cá o pacoti! Faz di contá que tu é Portugá cárálhu!

Chegó quê? Vaia masé prós Médios Orientes caralhu. Limpar a merda que Israel deixô.

Não obstante, obsto.

É pá, obsto!

Tiro o macaco do nariz e interrogo-me: “ Se os jovens desempregados não votassem, se as mulheres despedidas das fábricas de confecções se recusassem a fazer o comer, se os palestinianos, os Sírios, os Iranianos e os Jordanos invadissem todos ao mesmo tempo Israel, se os pobres nos EUA começassem a votar e se eu importasse para alguma coisa…então aí sim: Isto estava mesmo tudo fodido!”.

Assim , não…

Assim, é pá, vamos indo e vamos vendo.

Albatroz, 2006.

Friday, August 25, 2006

A Mipinha


Não é normal, não é comum.

Deparei-me com este Rubi solitário, numa deambulação inconsequente pelo mar morto do hi5.

Descobri o improvável: Uma mulher que escreveu isto no seu perfil:

(obrigado mipinha)

"Gosto mto do meu Portugal profundo, pequenino e analfabeto, apetrechado de IKEAS, centros comerciais e estadios de futebol.
Gosto das novelas da TVI, do Alberto Joao Jardim,do Major Valentim Loureiro, dos monologos do prof. Marcelo,gosto dos touros de morte em Barrancos, gosto do Algarve em Agosto,gosto das RP das DISCOS, dos porteiros e mais a fauna ressabiada que por la habita.
Gosto das universidades privadas e das pessoas que frequentam as uni.privadas.
Gosto das vagas para medicina.
Gosto das claques de futebol e das Tunas academicas.
Gosto dos tugas ao volante.
Gosto de ver teenagers bebadas e anorecticas.
Gosto das pessoas que abandonam os animais, depois de se aperceberem que eles tambem crescem, comem e defecam.
Gostei da mediatizacao que a TVI fez com a morte do actor Francisco Adam.
Gostei de saber que um grupo de miudos, mais novos que eu, espancou ate a morte um travesti, apenas porque era diferente e porque lhes apeteceu.
Gosto do sorriso cinico do Cavaco.
Gosto da generalidade dos programas que a Julia Pinheiro apresenta.
Gosto das pessoas que fazem 300 operacoes plasticas e continuam tao ou mais feias que a Cinha Jardim.
Gosto das pessoas que nao dao lugar aos velhos nos transportes publicos.
Gosto das pessoas desconhecidas que mostram a casa nas revistas.
Gosto dos parentes afastados que so aparecem no Natal e tem uma vida melhor que a minha.
Gosto da nossa justica, do nosso sistema de ensino e de saude.
Gosto dos livros da Margarida Rebelo Pinto.
Gosto do Pedro Santana Lopes.
Gosto do publico do levanta-te e ri da SIC.
Gosto das piadas sobre pretos, gays, alentejanos e louras.
Gosto de verificar que a maioria do pessoal da minha idade, universitario, nao le e talvez por isso nao saibam falar nem escrever.
Gosto de ver jovens trajados mesmo sabendo que nao vao ter emprego, a nao ser por cunha.
Gosto de ver duas pessoas casarem-se.
Gosto de ver as mulheres na cozinha, dps de um dia de trabalho, e os homens, tambem dps de um dia de trabalho, a beber umas cervejolas valentes refastelados no sofa da sala, comprado a credito no IKEA( irra, que ja publicitei 2 vezes esta marca).
Gosto de escrever sem acentos no hi5.
Gosto de saber que ninguem se vai dar ao trabalho de ler esta merda toda, porque normalmente so reparam nas fotos pateticas que coloco.
Gosto das pessoas que colocam imensos videos deles proprios e dos seus amigos aki no hi5, achando se o maximo e mostrando o quanto sao felizes e venerados por todos.
Gosto da antipatia dos empregados frustados.
Gosto das pessoas que nao separam o lixo, porque se estao a cagar para a qualidade de vida dos futuros netos e das geracoes futuras.
Gostava de saber se a velhas que vem o Goucha no seu programa da manha, o imaginam vestido de mulher e a apanhar com chicote.
Gostava de ter uma opiniao fundada e critica sobre as coisas."


Albatroz / mipinha , 2006

Wednesday, August 23, 2006

O Carbono aprendeu a sonhar


À uns milhões de anos atrás, um macaco qualquer, indiferenciado, desajeitado e indefeso, deu começo a algo.

Mal sabia ele o que a natureza lhe tinha reservado.

O capitulo final na fábula da matéria que ganhou consciência.

Pois ele era a massa amorfa de carbono e água, que pulsou por fim de vida. A rocha que se transmutou numa coisa que se interroga, que questiona, que absorve, que se deslumbra. O sonho impossível do átomo teimoso que insistiu em se transcender, unindo-se, agregando-se, replicando-se.

Ele era o Carbono obtuso e frio, inerte, que venceu a sua própria condição e que se olhava agora, assombrado, reflectido numa poça de água à muitos milhões de anos atrás, num planeta distante no tempo, dominado por lagartos pavorosos e insectos carnívoros.

Mas a rocha que se interroga, que se questiona, leva contudo a vantagem da inteligência. A arma absoluta, o desígnio da matéria e da natureza: a sua própria consciência. E foi como um rastilho ardendo pela estrada do tempo, que nunca mais nada consegiu deter.

O macaco, a rocha, o átomo, pareceu sorrir enquanto olhava a sua imagem trémula na poça de água.

Talvez tenha percebido nesse momento que o seu mundo nunca mais seria o mesmo.

Mais à frente, haveria de transformar o planeta.

Rabiscar equações sobre o universo.

E sonhar, olhando as estrelas.


Albatroz, 2006

Tuesday, August 22, 2006

Espelho, espelho meu...


Perceber, é fodido.

Porque a no momento em que percebes, assassinas as ilusões, destróis a duvida, o que poderia ser, visto que não é, como é entendido.

Podes viver uma vida toda a pensar que és atraente, bonito ou simpático.

Até ao dia em que percebas que não és.

Depois de perceberes, acabou, finito. Já não há nada a dizer: Conformas-te com o mundo.

Pronto é assim, acabou.

Em certa medida, é como te matassem, a diferença é que continuas vivo.

Mas não há dúvida que algo morre, e morre cá dentro, numa sombra algures na tua alma, numa dispensa poeirenta onde poucos chegam. Percebes? Não?

Eu explico.

É que nesta vida as pessoas preferem não saber e não perceber. Preferem acreditar no que não é verdade, porque a verdade muitas vezes também é cruel e circunscrita, insofismável. A verdade é sempre indesmentível.

Por isso, cuidado com os espelhos.

Cuidado com aquelas perguntas…

“Espelho, espelho meu…”...

Será que és bonita? Ou bonito? E quanto é que isso importa?

E o amor ?....È assim tão importante neste mundo? Já percebeste que nem sempre.

Já agora: O tamanho importa? Claro que sim.

E o dinheiro? È o mais importante? É obvio.

As mulheres traem menos que os homens? Ora pensa...

As pessoas são em geral falsas e hipócritas?

Paras para pensar… Sentes um estranho calafrio percorrer-te a espinha, como se tivesses com medo da resposta. E estás.

Olhas à tua volta....




E percebes que sim.


Albatroz, 2006

Friday, August 18, 2006

A arma carregada encostada à cabeça


Este é um mundo feito de empresas, de marcas, de cifras electrónicas numa rua estranha de Nova York. E têm à sua frente uma corja envelhecida de tecnocratas, que adoram falar na juventude, mas que sempre que podem os põem a pagar esta factura infindável de pertencermos sem contarmos.

E esta sensação de dispensa começa a germinar uma revolta miudinha….Uma raiva perniciosa que já estalou em França e que alastra lentamente por todo o lado.

Uma coisa incontrolável porque difusa…inconcreta. Como um conceito ou pensamento.

Algo que nasce deste sentimento estranho de que não contamos, que somos a carta fora do baralho, que somos um fardo, uma linha obliqua, um encargo.

De que não fazemos parte ou somos ausentes.

De que fomos dispensados de um mundo que apenas nos suporta sem valor acrescentado.

Despedidos com justa causa de um planeta super-lotado de fome, de miséria, de guerras insanas, de ódios antigos que se reeditam sem fim, numa melodia triste e melancólica que nos hipnotiza em frente à televisão.

E no final do dia, adormecemos amedrontados, confusos, com as nódoas negras da vida que acumulamos sem perceber bem porquê.

Amamos sem efeito.

Pensamos, mas não sabemos para quê.

Sonhamos, mas sabemos que o nosso destino à muito foi traçado.

Somos a ovelha branca perdida no meio da manada, à espera da tosquia...

E temos uma arma carregada encostada à cabeça e uma voz que nos manda comer.

Albatroz, 2006

A Lista


Por fim constatou-se o óbvio: A Segurança Social e o Estado estão falidos, em larga medida (acumulando com o excesso de pessoal e má gestão), porque existem muitos que não pagam o que devem, quando devem e no montante que devem.

A mim, parece-me evidente. Mas desenganem-se as evidências, pois que vivemos num mundo com uma estranha obsessão: As pessoas não interessam.

As pessoas são um fardo.

Que chatice essa coisa pá….Essa coisa das pessoas hoje durarem até aos 80 anos em média. Se calhar deviam morrer mais cedo de forma a libertar o aparelho de estado, de forma a dar sustentabilidade ao sistema.

Fala-se que o mundo mudou, fala-se na globalização.

Mas cresce a impressão de que, no fundo, está tudo na mesma. A mesma ganância, o mesmo salve-se quem puder de outros tempos.

Mais uma nota nesta sinfonia desajeitada de uma Europa e de um mundo em contra-ciclo com as pessoas.


Albatroz, 2006