Wednesday, May 17, 2006

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Atravessei um deserto de lágrimas e outros desesperos.

Perdi-me e achei-me sozinho, cheio de sede e um pouco moribundo. Olhei para cima e vi alguns abutres para me comerem a alma.

A minha vida sofreu um ponto final cravado como um punhal, infectado de sofrimento. Tentei reagir, mas ainda me debatia de dores, e já outro se cravava mais fundo: A evidência da qual não posso fugir, um segredo vociferado por mim próprio, que eu sei ser verdade, e que até já ouvi numa musica…

“A amor não é aquilo que tu pensas”.

E se é assim: Se foi tudo uma ilusão, se foi um balão que arrebentou de tão inchado, ou que por outro lado se esvaziou porque o furaram, agora como vai ser?

Como posso eu continuar a amar como dantes?

Arrastava-me por entre a areia da minha vida desértica e senti que outra estaca se cravava. Outro ponto final: O futuro que não conseguia imaginar para mim próprio. O medo de não me reencontrar do outro lado, de me perder definitivamente, de passar à condição de auto-desconhecido.

Mas desta vez levantei-me e reagi. Nem sei bem porquê.

Se calhar foi por ter percebido que três pontos finais, uns a seguir aos outros...

São reticências.


(Albatroz, 2006)

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