Monday, May 29, 2006

Todos esses momentos perdidos, como lágrimas na chuva


A nave extra-terrestre desceu no escuro da noite. Pousou perto, atrás de uma cerca perdida na escuridão.

Tive alguma dificuldade em perceber a figura esguia e estranha que se aproximava de mim, meio ambaciada pelas lágrimas e pela chuva .

Dobrou-se e pousou a sua espécie de mão sobre a minha testa, num toque cheio de conforto, como se fosse o toque de uma mãe. Como o toque de uma mãe....

Como o toque de uma mãe.

Serviço de amor inter-galático, pensei eu.

Deixei-me adormecer nos seus braços longos e irreais, sob o seu toque suave cheio de ternura.

A chuva não a sentia, e a noite envolvia-me como um manto, num estranho afago.

Um momento de amor infinito como o universo, perdido no tempo...

Como as minhas lágrimas na chuva.


albatroz, 2006

Wednesday, May 17, 2006

...


Atravessei um deserto de lágrimas e outros desesperos.

Perdi-me e achei-me sozinho, cheio de sede e um pouco moribundo. Olhei para cima e vi alguns abutres para me comerem a alma.

A minha vida sofreu um ponto final cravado como um punhal, infectado de sofrimento. Tentei reagir, mas ainda me debatia de dores, e já outro se cravava mais fundo: A evidência da qual não posso fugir, um segredo vociferado por mim próprio, que eu sei ser verdade, e que até já ouvi numa musica…

“A amor não é aquilo que tu pensas”.

E se é assim: Se foi tudo uma ilusão, se foi um balão que arrebentou de tão inchado, ou que por outro lado se esvaziou porque o furaram, agora como vai ser?

Como posso eu continuar a amar como dantes?

Arrastava-me por entre a areia da minha vida desértica e senti que outra estaca se cravava. Outro ponto final: O futuro que não conseguia imaginar para mim próprio. O medo de não me reencontrar do outro lado, de me perder definitivamente, de passar à condição de auto-desconhecido.

Mas desta vez levantei-me e reagi. Nem sei bem porquê.

Se calhar foi por ter percebido que três pontos finais, uns a seguir aos outros...

São reticências.


(Albatroz, 2006)