Monday, February 27, 2006

O Verbo foi mal conjugado


Resumindo:

Tenho 30 anos, não sou baixo nem alto, não muito inteligente nem propriamente burro, nem bonito nem feio, nem gordo nem magro. À quem diga que tenho umas merdas que vale a pena ouvir, mas duvido. Não sou muito isto ou aquilo, sou "dentro da média", sou como o maralhal, a ovelha branca perdida na manada. A ovelha branca partecipativa, reactiva, que questiona. Um chato do caralho.

Falta-me a pachorra, que à muito me abandonou.

Sabem?....Falta de paciência para aquelas coisas do costume, aquele engate constante com que nos prostituímos diariamente na nossa missão confusa de pertencermos, de sermos, de sentirmos, de vivermos.

No fundo, estou-me a cagar para esta merda de mundo que dobra para enfiar no cu a sua filosofia de pacotilha hipócrita, a sua bíblia escarrada de paradoxos, de coisas que de tantas vezes ditas ficam baças, e por isso, nunca se fazem ou concretizam...

“ Amor”, “Compaixão”, “ Honestidade”, “Solidariedade” ?....

Palavras.

De tanto auto-enrrabado que está este mundo, as pessoas perderam-se e a humanidade extraviou-se. Ficaram estas palavras soltas, esvoaçando ao vento, despedaçadas pelo tempo que lhes tira o sentido.

Estou-me a cagar, acreditem.

Para mim as palavras só têm sentido depois de vividas. Palavras tipo: Amor, a paixão, o sonho, a ilusão, têm de ser vividas para existirem e não serem os fantasmas do costume.

E se calhar por ser médio, nada de especial, entenda-se, se calhar por ser nota 10, percebo-me incompleto, inacabado.

Sinto-me no principio e nem sequer a meio de nada.

Sinto-me a começar alguma coisa.

O por isso estou-me a cagar! Ouviram? A C A G A R !!!!

Estou-me a cagar para os vossas “visões” de um mundo globalizado, para as teorias do markting dirigido, para os “bussiness finance”, para se o Fiat Punto JTD é melhor que o Corsa 1.7 CDTi , para a China e o “Dumping”, para se o gajo do talho é mais bonito que eu, ou se eu estou com barriga a mais ou a menos, e já agora, para o mundo em geral e vocês em particular.

Caguei nesta merda toda.

Sou um verbo mal conjugado ou uma nota fora de tempo.

Sou um puto dum chato.

E sabem que mais?

Caguei.





(Albatroz, 2006)

Friday, February 24, 2006

A Viajem Interminável


No outro dia ocorreu-me uma imagem: a de uma escarpa íngreme, uma escalada imensa até ao topo de uma montanha, e eu a subir a custo a encosta da vida, pé ante pé, ofegante.

Esta vida não é para covardes, é mesmo para valentes, para os que teem a valentia de sonhar, de querer alguma coisa, ou alguém, de uma forma tão forte que transcenda qualquer montanha, por muito alta que ela seja.

Alguém uma vez disse que o importante não é chegar ao cume, mas o caminho que se faz para lá chegar.

O importante não é perguntar porquê... mas sim “Porque não?”.

O Importante é sonhar tudo de novo, depois de acordar.

E quem realmente importa é quem acredita em nós, quem luta ao nosso lado....quem está disposto a fazer a viajem.

Quem está disposto a nos dar a mão e nos empurrar encosta acima, quem temos ao nosso lado durante a caminhada, quem nos faz acreditar, quem nos segura quando tropeçamos e quem espera de nós o mesmo.

Quem importa é quem nos faz acreditar que falta pouco.

E que o pior já passou.





(Albatroz, 2006)

Thursday, February 23, 2006

Gourmet


Ignorante do fim que não irá tardar, o homem aproxima-se da sua cama, ajeitando pesadamente os lençóis, desconhecendo que aquela seria a ultima noite, do ultimo dia perfeito aqui na terra.

Acima do telhado de sua casa, para lá da cascata de concreto, dos prédios e vidraças da cidade, esconde-se um ronronar pernicioso de uma raça de gatos-persas extra-terrestres que conspiram na sombra a invasão do planeta terra.

À já milhares de anos que nos estudam pacientemente, numa cumplicidade estranha e tímida, que escondia no entanto as suas verdadeiras intenções, o plano intrincado e obliquo, paciente e mil vezes revisto.

Aniquilação, destruição, mijo.

Sim, o mijo, a arma final, o segredo mais bem guardado, porque decisivo, o golpe final na suposta raça dominante, que nunca, em milhares de anos, desconfiou ser dominada.

Agora é tarde.

Na penumbra da noite, os gatos persas descem das suas naves-berço e rapidamente invadem os centros estratégicos do planeta. Sem hesitação, sem remorsos e com a frieza do predador, tudo cobrem de mijo ácido.

Londres cai primeiro, Nova Iorque a seguir, Los Angeles, Roma , Paris... e Sydney está já em rigor-morttis.

O homem acorda sobresaltado com um som cavo e surdo ao fundo da cama.

Estica a mão para o candeeiro, e ainda meio encandeado pela sua luz, pergunta:

“ Quem está aí?”....

A resposta foi um som fininho e cortante, frio...meio abafado pelos gritos do outro lado da janela, pelo som das sirenes e dos helicópteros.


Uns olhos grandes e brilhantes emergiram da sombra. O monstro farfalhudo parecia sorrir sarcástico e cínico...

“Miauuu...”.



(Albatroz, 2006)

Monday, February 20, 2006

HaraKiri


Este mundo de facto é estranho...

90 % da sua riqueza concentra-se em 10% dos seus habitantes. Pode dizer-se que este mundo não é lógico, ou talvez tenha a lógica sub-reptícia das bolsas, das multinacionais e do papel esverdeado.

È um mundo anti-pessoas, estranhamente concebido por elas mesmas e à sua medida.

O mundo dos terrorismos, dos ódios reeditados, travestidos de fé religiosa que é a cegueira colectiva que alimenta o ódio. O mundo das guerras mentirosas, dos cenários antigos que regressam sempre mal dissimulados, os imperialismos cheios de mofo, vendendo a sua suposta ordem mundial e a justiça injusta dos que tem a força das armas, mas não a força da razão.

Podemos fingir que não somos de cá, fingir que somos uma raça de outro planeta, acima disto tudo.

E apenas somos confundidos no meio dos rios de gente dos shoppings, dos estádios...os “outros”, vitimas deles mesmos.

Deste HaraKiri estúpido.

Um suicídio desnecessário.



(albatroz, 2006)

Sunday, February 12, 2006

A Base do Ódio


As reedições cíclicas da intolerância nidificam nos seus suportes de ódio, que por sua vez nascem de outros ódios, ainda mais antigos e viscerais.

O teóricos da psicologia defendem que muito do que é um ser humano se resume a uma pirâmide ( a pirâmide de Maslow). Na sua base estão as necessidades fisiológicas, depois a segurança, depois a pertença (sim, pertencer a alguma coisa, curioso...), o reconhecimento e a auto-realização no topo.

Se vivermos num mundo que nos retire as 3 primeiras: fisiologicamente não termos nada para comer, não nos sentirmos seguros, termos a impressão que somos perseguidos, que ao dobrar da esquina está uma bomba ou alguém para nos matar, e se não tivermos uma pátria, uma terra que sintamos como “nossa”, se eliminarem a nossa “pertença”, a nossa identidade, somos então smi-humanos, porque a nossa pirâmide fica sem base, somos seres humanos a que falta uma base, somos alguém que não se suporta em nada.

Que somos nós então?

O que nos fará acordar e enfrentar o dia e o resto das nossas vidas?

O ódio nasce do que nos falta como seres humanos, das peças soltas que nos alimentam a raiva contra a diferença, contra ou outros que sentimos que nos matam devagar, porque nos roubam a dignidade e a base da pirâmide.

Um povo numa jihad alimentada pelo ódio, um povo que sofre a fome, que se sente perseguido e desenraizado, é um inimigo impossível de vencer pelas armas.

E nem se pode falar em vencer, pois esta palavra encerra em si algo conotado com “ subjugar”, ou “ultrapassar”, “derrotar”, em vez de “entender” ou “mudar”....

O ódio, alimenta-se dele mesmo. Em circuito fechado, em constante feedback, inchando numa bolha sanguinolenta e aterradora.

Se calhar, este ódio endémico e incontrolável vence-se com outra coisa.

Fazem-se musicas sobre ela.

Escrevem-se livros em seu nome.

Uma utopia?



(albatroz, 2006)