Wednesday, December 28, 2005

O Universo sonhou naquela noite


Em memória do Prof. Carl Sagan (1935 - 1996)

Li o Cosmos quando tinha 14 anos. Os olhos cediam primeiro do que o fascínio, e as páginas devorava-as sedento e abismado, porque a voz que falava dentro de mim, que vinha daquelas páginas oferecidas por uma mão amiga, a voz que eu achava quase profética, ensinava mundos distantes, galáxias imensas, supernovas e quasares.

A Física é a ciência de tudo. Tudo é Física, e nela nada se esgota, ou nasce, tudo se relaciona, envolve, resolve ou inventa. Na Física, o mundo nasce na harmonia de um poema, numa lógica de um relógio velho e poeirento que nunca se atrasa ou adianta, na Física, o saber, a sabedoria, é a demanda. Na Física, as estrelas não são o limite, nem os átomos um fim, para a Física, e para os Físicos, tudo é possível de ser sonhado, para podermos sonhar o sonho maior de nos conhecermos.

De onde viemos? Porque estamos aqui? Para onde vamos? As perguntas dilaceradas de Confúcio talvez encerrem em si o guião interminável, a resposta, a equação que nos devolva a certeza de que fazemos sentido, que o Universo que nos deu à luz se explica e compreende. Uma tarefa tão grande como o Cosmos em si.

Mas o homem sente-se sozinho e angustiado pelas respostas sem sentido, ou as perguntas que escondem um mistério maior. A vontade de conhecer, de descobrir, está em todos nós, todos somos físicos em certa medida, porque queremos saber o porquê, o quando e o onde, e sem sabermos, a pergunta esconde um circulo que acaba em nós mesmos, porque se somos feitos de carbono, de água ou cálcio, somos matéria das estrelas, somos poeira estelar, e então é certo que a demanda da origem do Cosmos, é a demanda de nós mesmos.

Somos a matéria que ganhou consciência, que ama ou odeia, que sorri e se fascina com a imensidão e a vastidão do útero de onde veio, o Universo magnânimo e austero de onde tudo resultou.

Depois de ler tudo de Sagan, li Reeves, Feynman, Hawking e outros mais que me abriam ainda mais a frincha luminosa do deslumbramento. Li sobre as teorias, as confirmações, as decepções, vidas levadas na angústia das fórmulas solitárias, escritas em folhas brancas perdidas em secretárias desarrumadas.

Kepler olhou os planetas, descobriu órbitas e inventou a ciência moderna. Newton ofereceu a matemática elegante, derivativa e integral, e pelo meio adiantou a gravidade, a força misteriosa que agrega a matéria. Heinsenberg enfiou a cabeça nos átomos de Dalton e Bohr, para nos introduzir o “bug” do principio da incerteza: afinal é impossível dizer que uma partícula está “aqui”, “agora”, e pelos vistos, Deus têm sentido de humor. Planck resolve pegar na tesoura e dividir a energia, o motor do Universo, em bocados que baptizou de “quanta”, nascendo então a mecânica quântica, o drama obscuro e tenebroso da ciência moderna. E Einstein fez explodir a física num referencial em movimento, relativo e sem privilégios, eis portanto que tudo é relativo, e a matéria esconde energia, tem lógica, tem subtileza, e abre a Física para um novo e admirável mundo novo...e pelo meio destes, outros sonharam teorias, viveram vidas de deslumbramento e contemplação, em busca do conhecimento.

Alguém um dia descobriu que todas as galáxias se afastam de nós a grande velocidade, e quanto mais afastadas, mais depressa, como se fugissem. Como se afastam, é porque um dia estavam juntas, e algo, ou alguma coisa, as fez precipitar em todas a direcções, e não só elas, mas o espaço envolvente também. Nasceu a teoria do Big-Bang. Mas na física a cada resposta, nova pergunta, mais penetrante, mais curiosa e difícil de responder.

Se as galáxias se afastam umas das outras em todas as direcções, haverá algo de especial em relação à Terra, para “toda a gente” fugir de nós? Não...algo, algum motor estranho, talvez uma matéria negra, talvez outra coisa, é responsável pela máquina que move o espaço-tempo, e o leva a encher como um balão, e em cuja superfície nos encontramos solitários e deslumbrados. O Universo é encurvado numa 4ª dimensão, nesse sentido, do nosso ponto de vista, não tem principio nem fim, é infinito sem o ser. E o que encurva o espaço-tempo, o tecido do Universo que se expande e estica, a superfície do balão hiper-dimesional onde vivemos? A matéria. A batota cínica de Deus.

Mas algo não bate certo. O Espaço não devia ser simétrico e homogéneo se tudo começou no titânico Big-Bang? Alguma coisa deve explicar a relativa confusão e dispersão de galáxias e matéria escura que encontramos no céu... A resposta tímida foi uma conjectura meio esquizoide, avançada com timidez e reserva: o Universo inflacionário, quer dizer, acelerado no princípio, até aos 10^-35 s depois de ter rebentado, se alguma coisa tivesse de ter acontecido para explicar a aparente desordem lá encima, teve de acontecer até aí, doutra forma, já não percebemos nada.

Aliás, não percebemos nada e duvidamos de tudo, quando o “tudo” é mesmo tudo.

O 1º dever da inteligência é duvidar dela própria, é certo, mas também é preciso ter espírito crítico que evite o caldeirão do disparate e da ignorância, travestida numa mirabolância de mesa de café.

Era bom que o universso acelerasse acima da velocidade da luz, que ela variasse sem percebermos...era óptimo. Mas a cada conjectura, deve-se devolver a humildade da confirmação experimental, ou da concordância das equações e dos conceitos.

Teorias há muitas, mas verdade há só uma, escondida e frágil, dissimulada num buraco negro, esbatida na luz de um quasar distante e misterioso. Mas a porta entreaberta do conhecimento que nos alimenta o fascínio, derrama a luz que nos conduz, que nos fascina.

Uma coisa eu sei: algo me liga ás estrelas. Sou feito das mesmas partículas, compartilho algo com o Sol ou com Andrómeda, com a nebulosa de Orion ou com a estrela de Bernard.

Quando olho as estrelas à noite, sinto-me esmagado pela imensidão e o deslumbramento. Sonho com viagens, com seres exóticos, com mundos que me desafiam de tão estranhos. Sorrio com a beleza e o mistério do Universo. Coloco questões penetrantes, rio-me com as conjecturas.

Sinto-me pequeno, humilde e relativizo: Sou feliz e estou grato de o estar a contemplar como fizeram os meus antepassados, com os quais compartilho o espanto e ainda algumas questões.

E recordo o menino no escuro da noite, que adormeceu com o livro no seu peito, ainda com as páginas abertas.

A matéria que ganhou consciência.

O Universo a sonhar com ele próprio.



(© albatroz, 2005)

7 Comments:

At 9:37 AM, Anonymous Anonymous said...

Quase que consigo imaginar esse menino, no escuro da noite, que adormeceu com o livro no seu peito, ainda com as páginas abertas...

:)

 
At 7:19 PM, Anonymous Anonymous said...

Vamos tentar apenas viver em paz, se isso é possível!!!
Tantas questoes e tao pouca tolerância!!!!
.....
E um blog pessoal é egocentrismo!!!!!
.....

 
At 8:32 PM, Blogger Albatroz said...

permita-me discordar, caro anónimo, um blog pessoal não é egocentrismo, um blog pessoal (para quem o sabe fazer, para quem pode...) é um outro meio de passar as nossas ideias, os nossos conceitos e tudo o resto que faz o nosso mundo, da forma como o vemos e sentimos. Um blog, nesse sentido, é um canal, um meio e nada mais. Que o caro "anónimo" se sinta melindrado por quem expõe os seus pontos de vista e a sua visão do mundo, isso é outra questão, que nos remete para outros filmes. Terei todo o gosto de alterar consigo o "canal" para o "ar", numa mesa do café, ou noutro sitio.

 
At 9:09 PM, Blogger Albatroz said...

Quanto ao insulto velado de insinuar que sou intolerante, permita-me dizer que a ignorância, a hipocrisia, a falta de humildade, são isso sim características de uma mente intolerante. Obviamente não leu o meu blog, ou se o leu, foi na vertical. Repare, caro anónimo, que registo o seu comentário, e lhe respondo nas mesmas armas, em igualdade, eu assino e vc não, porque por ventura a intolerância de que fala é sua, pq eu assumo quem sou, e como penso, n me escondo nem disfarço.

 
At 12:19 AM, Blogger Albatroz said...

E em jeito de rodapé acrescento que um egocêntrico é sobretudo alguém que gosta de falar sobre si e de si, ora, aqui neste blog, falo de tudo, menos de mim. Se reparar, os temas abordados vão desde o Iraque às presidenciais, passando por alguns textos e poesias avulsas, como pode isso ser egocêntrico? Será que você chama egocêntrico a quem defende as suas ideias e os seus pontos de vista? Se assim for, então o problema é mesmo o seu ego, que quer atropelar os outros, ou então a sua intolerância para com as ideias contrárias ás suas. Em ambos os casos, lamento.

 
At 3:06 PM, Anonymous Anonymous said...

Concordo.

Se ter um blog é egocentrismo, o que é escrever um livro? pintar um quadro? compor uma música? será tudo isso uma forma de egocentrismo ou de o autor dar a conhecer o seu eu, as suas ideias, a forma como vê o mundo, os seus sentimentos.

Só lê, só vê, só ouve, quem quer.
Se por algum motivo, vemos, ouvimos ou lemos, temos o direito de não gostar e tentar contra-argumentar, ou simplesmente não nos pronunciarmos e respeitar a pintura, a música, os livros, os blogs dos outros.

Será que o Sr. Desconhecido (porque só o pode ser e nem quero acreditar que não o seja), o Sr. Anónimo,o Sr. Pontinhos (..), nem sei bem como lhe chamar, não tem igualmente formas de se dar a conhecer aos outros?

E serão essas formas melhores do que esta?

Nâo sei, porque não o "conheço".

Criticar por criticar, atacar a criação de alguem sem ser construtivo, sem fundamentar e sem dar a cara, aproveitar-se do anonimato de um comment deixado num blog, que é que me parece revelador de algum distúrbio do ego.

E nada, mas mesmo NADA, justificaria uma atitude destas.

Parece que alguem ter ideias e capacidade para as expor é incomodativo para certas pessoas...

Quanto à necessidade de tolerância, sou defensora dela. Mas aliada à tolerância vem sempre a transparência e a frontalidade.

Inês

 
At 6:36 PM, Anonymous Anonymous said...

Ainda a propósito de Carl Sagan. Dizia ele:

"Saber não equivale a ser-se muito esperto; a inteligência é mais do que informação: é, simultaneamente, discernimento e capacidade de utilizar e coordenar a informação. E, todavia, a informação a que temos acesso é o índice da nossa inteligência."
... "Se só ensinarmos as descobertas e os produtos da ciência - por muito úteis e exaltantes que possam ser - sem comunicar o seu método crítico, como poderá o indivíduo médio distinguir a ciência da pseudo-ciência? Nesse caso, ambas são apresentadas como verdades insofismáveis. É um desafio ao divulgador científico tornar clara a história real, tortuosa, das grandes descobertas da ciência, dos erros de compreensão e da recusa, por vezes obstinada, dos que a praticam em mudar de rumo. Infelizmente, muitos dos manuais destinados aos jovens quase não abordam este assunto. É muito mais fácil apresentar de um modo atraente a sabedoria destilada por séculos de interrogação paciente e colectiva da natureza do que pormenorizar o complicado aparelho de destilação. O método científico, por muito maçador e hostil que possa parecer, é muito mais importante do que as descobertas científicas. Não podemos esquecer que ainda há poucos séculos muitas doenças, por exemplo, eram consideradas causas suficientes para condenar mulheres à fogueira."
... "Na Universidade de Chicago também tive a sorte de fazer parte de um programa educativo concebido por Robert M. Hutchins, em que a ciência era apresentada como parte integrante da deslumbrante tapeçaria do conhecimento humano. Era considerado impensável um aspirante a físico não conhecer Platão, Aristóteles, Bach, Shakespeare, Gibbon, Malinowski e Freud - entre muitos outros. Numa aula de Introdução à Ciência, a perspectiva de Ptolomeu segundo a qual o Sol girava à volta da Terra foi apresentada de uma forma tão atraente que alguns alunos começaram a pôr em causa a sua confiança em Copérnico. O estatuto dos professores no curso de Hutchins não tinha quase nada a ver com a investigação que faziam; curiosamente - ao contrário do que se passa nas universidades americanas nos nossos dias -, eram avaliados pelo ensino que ministravam, pela sua capacidade de informar e de estimular a geração seguinte. ..."
... "É recorrente cada geração preocupar-se com o facto de os padrões educativos estarem a baixar. Um dos mais antigos ensaios na historia da humanidade conhecidos, que data da Suméria de há mais de 4000 mil anos, lamenta o factor de os mais jovens serem muito mais ignorantes do que a geração imediatamente precedente."
... "Todos nós já presenciamos o contentamento e a profunda satisfação das crianças quando descobrem e compreendem alguma coisa. Parece que as crianças nascem com o gosto do conhecimento. Contudo, com o passar dos anos muitas delas, em particular na adolescência, são convencidas que o conhecimento não é para elas."

Isto, quem sabe, sabe e o resto é letra...

I.

 

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