Wednesday, December 21, 2005

O peido em camera lenta


A minha valsa é tocada em dó menor... e parece uma balada triste, intermitente e fora de tom.

O rosto que vejo no espelho de manhã tem um olhar desesperado e gostava de ter alguma resposta para lhe poder dar, alguma coisa, mas como sempre, as palavras morrem na garganta, inúteis.

O mundo para o qual acordo de manhã, vive um sono profundo e hipnótico feito de guerras mentirosas, de desemprego, de doenças virulentas incontroláveis e não tem futuro, nem o quer inventar.

O meu mundo acredita que o que importa é o produto, não as pessoas, e que um numero explica tudo, e tudo se sacrifica por ele, uma percentagem, um défice obscuro. O que importa é frio, está escrito num papel e não respira nem sonha como nós...

A nossa valsa é lenta... melancólica, tocada com angustia.

E todos nos vendemos num reality show patético, um big brother onde nos tentamos ver, desesperados, na esperança vaga de nos percebermos.

Vivemos no medo, aterrorizados pelos terroristas, os magos do nosso destino que nos ofereceram como sendo o inimigo, e mesmo quando nos queremos entregar a alguém e fazer amor, temos a desconfiança de arvorar com isso uma morte lenta e agonizante.

Temos medo, temos muito medo, e por isso queremos fugir, mas não sabemos para onde ou em que direcção.

Logo, logo, temos 30 anos e as duvidas sufocam-nos, apertam devagarinho como um torniquete.

Queríamos perceber, mas algo nos escapa.

Queremos amar, mas não sabemos como.

Queríamos não estar aqui, mas temos uma arma carregada encostada à cabeça, e uma voz que nos manda comer.

Tudo isto como num peido em camera lenta... E flutuando no meio dos salpicos de merda, tentamos nos agarrar a alguém, ou que alguém nos agarre...esticamos o braço e gritamos...

“Amem-me!!! Fiquem comigo...”

Outros passam por nós, perdidos para sempre no meio do esterco.

E temos medo do impacto.

De aterrar e perceber que tudo isto foi para nada.


(© albatroz, 2005)

0 Comments:

Post a Comment

<< Home