Thursday, December 22, 2005

Do outro lado


Hoje acordei triste.

Olhei a janela fustigada pelo vento e pela chuva. Acho que até o céu chora por mim e o vento partilha a minha raiva e a minha fúria.

Levantei-me e cambaleei até ao quarto de banho, e foi então que vi a imagem no espelho.

Alguém me olhava aterrorizado do outro lado.

Um homem, aí com os seus 30 anos, nem gordo, nem magro, com um rosto contraído e um olhar que parecia uma suplica.

Gentilmente, acenei-lhe com a mão na esperança vã de lhe roubar um sorriso.

O homem limpou bruscamente o ressoado do espelho, para me ver melhor. Abriu a torneira, ouviu-se o som da água a correr e o fumo branco do vapor.

Os seus olhos e o seu rosto perderam-se um pouco no nevoeiro.

Aproximei-me mais e pus-me em bicos de pés para ver melhor.


E reparei que o homem, que era eu, limpava as suas lágrimas na água tépida.


(© albatroz, 2005)

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