Do outro lado

Hoje acordei triste.
Olhei a janela fustigada pelo vento e pela chuva. Acho que até o céu chora por mim e o vento partilha a minha raiva e a minha fúria.
Levantei-me e cambaleei até ao quarto de banho, e foi então que vi a imagem no espelho.
Alguém me olhava aterrorizado do outro lado.
Um homem, aí com os seus 30 anos, nem gordo, nem magro, com um rosto contraído e um olhar que parecia uma suplica.
Gentilmente, acenei-lhe com a mão na esperança vã de lhe roubar um sorriso.
O homem limpou bruscamente o ressoado do espelho, para me ver melhor. Abriu a torneira, ouviu-se o som da água a correr e o fumo branco do vapor.
Os seus olhos e o seu rosto perderam-se um pouco no nevoeiro.
Aproximei-me mais e pus-me em bicos de pés para ver melhor.
(© albatroz, 2005)


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