Cavaco, incorporated

Sempre achei Cavaco um candidato fraquíssimo. Personalidade truculenta, uma antipatia natural que espanta de tão ríspida e um discurso vago, contraditório e vazio. E até por isso, por ter perfeita noção das suas limitações, Cavaco evita o confronto, porque sabe que depois dos primeiros 10 min, arrasta-se, vociferando ao seu melhor estilo palavras desconexas e frases elípticas que não dizem nada. Depois dos 1ºs 10 min, Cavaco não argumenta, responde, defende-se, porque na verdade, Cavaco sobe à arena desarmado, sem nada, sem ideias, sem conceitos sobre nada nem alguma coisa, Cavaco não sabe ou não responde, argumenta o óbvio, fala sobre o que todos sabem, e sobre o futuro, invoca uma estratégia difusa que se confunde com tudo.
Mas então, se é assim tão mau, tão básico, porque Cavaco vai à frente? Porque consegue ele vender o saco vazio de ideias? Porque consegue ele falar em círculos sobre nada, e mesmo assim recolher uma aceitação estranha, quase surrealista?
Pouco depois de ter visto o Cavaco num debate na televisão, começou um programa num canal da concorrência chamado “1ª Companhia”. Nele desfilam 7 ou 8 básicos, patetas, simplórios, e o programa consiste, basicamente, em mostrar as suas aventuras, e nos mostrar as suas palhaçadas durante uma pseudo-recruta no exército.
Temos o palhaço-mor, um ex-realizador de filmes pornográficos, a loira mais ou menos burra, o conde da praxe, e o resto do pelotão de celebridades (?). O programa está bem produzido, feito por técnicos rotinados, e resulta.
A 1ª companhia é um programa líder de audiências. Feito com uma competência acima da média, o “show” da recruta recolhe a aceitação do público e o programa vende. Foi bem empacotado, com uma boa caixa. Vende nada, vende uma coisa tão vazia como dislates e peripécias, não pretende mais nada do que isso, e no entanto, é um sucesso. E por ventura o programa dá aos espectadores exactamente aquilo que querem: o básico, o pronto a vestir, o ready-made. Digere-se sem mastigar muito, sem pensar muito nisso.
Hoje em dia a melhor maneira de ganharmos desconfiança é tentarmos vender uma ideia, um conceito sério, alicerçado em factos, uma ideia sólida. As pessoas desconfiam dos que têm ideias. Não estão com paxorra, e rotulam de demagogos. Pensar dá trabalho.
Quem têm “ideias”....é um idiota.
Neste mundo arranja-se inimigos por vender ideias, por ter conceitos e convicções. Neste mundo, somos demagogos se nos armarmos em intelectuais, aliás, se tivermos ideias, se argumentarmos, somos “pseudo”, e não intelectuais.
Com ideias, somos perigosos. A ideia, o conceito, a convicção, são coisas perigosas, porque incontroláveis. E então um gajo com ideias e de esquerda é um perigo. Até prova em contrário, é uma “espécie de Louçã”: uma degenerência do antigo bloco de leste. Pronto, já está, sem pensar muito nisso, caga e anda.
As pessoas de hoje (infelizmente) gostam do básico. O básico, e quanto mais básico melhor, vende e é bom para a saúde. Sobretudo, adoram rótulos, caixas e embalagens. E adoram rotular: Cavaco: O salvador, o dom Sebastião, Soares, ultrapassado e velho, Louça?...Louçã...bom... demagogo, só pode: demagogo e hipócrita. Pronto, sem pensar muito nisso. Como nas arenas, os bons contra os maus, o Porto contra o Benfica, os de riscas azuis contra os vermelhos.
Cavaco podia ser um concorrente da 1ª companhia. Bem vendido e empacotado, cavaco é uma face visível do mundo despido de ideias e desconexo em que vivemos. Cavaco é vazio e frio, sem fundo. Não se percebe bem o que diz, mas têm ideias, não se sabe bem porquê, mas vai ganhar. E se vai ganhar, então vamos todos votar nele. Porque alguém disse.
“Cavaco” podia dar na televisão em “prime-time”, depois do telejornal e antes da telenovela.
Cavaco é fixe, porque é “cool”. Um gajo ouve e “griza-se” com o Cavaco.
Cavaco têm um rótulo: “ O Salvador”, foi-lhe colado por os mesmos que nos vendem outras coisas, no mesmo sitio de sempre. E Cavaco é bom para a saúde. Só a palavra “Cavaco”, diz tudo. Cavaco é “POP”.
O “People” curte bué o Cavaco, bora lá por a cruz. Sem pensar muito nisso.
Caga e anda.
(© albatroz, 2005)


2 Comments:
Pois...eu vou é cagar nele, disso não tenho dúvidas nenhumas.
É como tu dizes...é o paizinho, tirano, mas salvador. Um pouco como o que aconteceu com o Bush nos EUA. São candidatos fracos mas falam de terroristas e em crise e o pessoal acha que eles nos vão proteger contra o papão...
Sim votemos no Francisco Louça isso é que é um candidato de verdade! Sp à frente na liberalização do aborto e das drogas e casamentos homossexuais!! Isto é que são assuntos realmente importantes!
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