Saturday, December 31, 2005

Bom ano 2006

Neste amanhecer, espero que o sol brilhe uma esperança que não seja vã. Espero que o futuro seja uma auto-estrada sem encruzilhadas ou sentidos proibidos.

Espero esperar alguma coisa.

Bom ano, cheio de coisas boas e de saúde.

PS: E à noite, antes de adormecer, espero não vos trazer algo que tenha arrancado do meu próprio peito...


O Balão de Oxigênio


"As estimativas orçamentais ontem divulgadas pela Entidade das Contas e Financiamentos Políticos revelam que Cavaco Silva prevê gastar 3,7 milhões de euros, ou seja, os dez mil salários mínimos permitidos por lei. A maior parte da verba, 1,47 milhões de euros, será destinada a publicidade. Um total de 665 mil euros será empregue em acções de campanha e 402 mil euros em material de propaganda." (Expresso on-line)

resto da Noticia, aqui

A Cavaco Inc. em velocidade de cruzeiro. Só com muito dinheiro se vende um saco vazio cheio de nada, e se constrói uma embalagem bonita para consumo rápido, a pastilha-elástica deita fora.

A última de Cavaco foi essa espécie de ejaculação mental precoce do “Secretário de Estado”, que faz um chat com os “responsáveis” das empresas, para ver se elas ficam. E mais uma vez, isto revela um candidato que se anula a ele próprio quando abre a boca, porque quando a abre, normalmente, sai mosca.

Cavaco subsiste então porque é apoiado pela nata empresarial endinheirada, que o patrocina ilimitadamente (com gastos oficiais da campanha a ascenderem já aos 3700000 euros, mais de meio milhão acima de Mário Soares, e a anos-luz dos restantes), e lhe coloca à disposição um staff competente e rotinado, o balão de oxigênio.
A condição? Que não abra muito a boca. E Cavaco, no seguimento, já informou que não quer mais debates, porque já se enterrou que chegue.

Cavaco “expropriou-se” a ele próprio quando ingressou as fileiras dos neo-liberais tugas, que apostam na politica do “terror” do défice, nos despedimentos e no desemprego, como forma de salvar os coiros e obter lucro rápido, que a vida é curta. Mas, é lógico, uma coisa destas não se pode vender ao povo.

Ele, no fundo, para muitos dos “enganados” pela Cavaco Inc., representa uma espécie de contraponto para as politicas de Sócrates. Enganam-se. Cavaco é um Sócrates ao quadrado, é um digno representante das políticas economicistas dirigidas para o lucro, para o dinheiro, e não para nós, as pessoas. Basta ver quem o apoia e patrocina, para ver que não podia ser de outra maneira.

Cavaco quer-se caladinho, para não complicar. Obediente aos seus tutores.

A rebolar, para depois dar a patinha.



(© albatroz, 2005)

Thursday, December 29, 2005

Mais do nada, depois do mesmo


“Podia existir um responsável do Governo que fizesse a lista de todas as empresas estrangeiras em Portugal e, de vez em quando, fosse falar com cada uma delas para tentar indagar sobre problemas com que se deparam e para antecipar algum desejo dessas empresas se irem embora”

(ler entrevista toda)

No seu delírio niilista de frases circulares, argumentos ocos e postura esfíngica tipo estátua da liberdade, Cavaco avança para a estratosfera, numa frase que revela o lírico.

O remédio para as empresas não irem embora é uma conversa, um chat com um “responsável”, um “por favor fique, que nós somos demais” ou algo como isso, que ele também não explica, mas também não interessa, pois já estamos habituados ao código-cavaco.

“De vez em quando” a gente fala com cada uma delas, e pronto: Talvez fique, talvez não, depois vê-se. O Argumento é que os outros países também têm, sendo então a proposta, para além de risível, uma cópia do que já existe. Gostávamos era de saber que países são esses, e se eles têm empresários como os nossos, o nosso sistema fiscal ou o nosso desemprego. O país dado como exemplo? Áustria (nem mais nem menos)... Mas não façamos perguntas complicadas senão somos demagogos.

Feitas as contas, é como sempre: Noves fora...

Nada.


(© albatroz, 2005)

Wednesday, December 28, 2005

Portozelo


Desvio o olhar e vejo algumas gaivotas planando doces rente ás aguas panacentas de um rio que logo se abraçará ao mar.

Sinto o cheiro da maresia, e o vento revolve zumbindo baixinho.

Um pato aproxima-se de mim, tímido.

Tinha um ar um pouco espantado.

Tive pena de não falar a sua língua, senão metia conversa.

E na outra margem, as árvores já despidas pelo Outono dançavam lentas ao vento. No céu, o sol enganava o frio, prometendo derreter as almas mais frias.


(© albatroz, 2005)

O Universo sonhou naquela noite


Em memória do Prof. Carl Sagan (1935 - 1996)

Li o Cosmos quando tinha 14 anos. Os olhos cediam primeiro do que o fascínio, e as páginas devorava-as sedento e abismado, porque a voz que falava dentro de mim, que vinha daquelas páginas oferecidas por uma mão amiga, a voz que eu achava quase profética, ensinava mundos distantes, galáxias imensas, supernovas e quasares.

A Física é a ciência de tudo. Tudo é Física, e nela nada se esgota, ou nasce, tudo se relaciona, envolve, resolve ou inventa. Na Física, o mundo nasce na harmonia de um poema, numa lógica de um relógio velho e poeirento que nunca se atrasa ou adianta, na Física, o saber, a sabedoria, é a demanda. Na Física, as estrelas não são o limite, nem os átomos um fim, para a Física, e para os Físicos, tudo é possível de ser sonhado, para podermos sonhar o sonho maior de nos conhecermos.

De onde viemos? Porque estamos aqui? Para onde vamos? As perguntas dilaceradas de Confúcio talvez encerrem em si o guião interminável, a resposta, a equação que nos devolva a certeza de que fazemos sentido, que o Universo que nos deu à luz se explica e compreende. Uma tarefa tão grande como o Cosmos em si.

Mas o homem sente-se sozinho e angustiado pelas respostas sem sentido, ou as perguntas que escondem um mistério maior. A vontade de conhecer, de descobrir, está em todos nós, todos somos físicos em certa medida, porque queremos saber o porquê, o quando e o onde, e sem sabermos, a pergunta esconde um circulo que acaba em nós mesmos, porque se somos feitos de carbono, de água ou cálcio, somos matéria das estrelas, somos poeira estelar, e então é certo que a demanda da origem do Cosmos, é a demanda de nós mesmos.

Somos a matéria que ganhou consciência, que ama ou odeia, que sorri e se fascina com a imensidão e a vastidão do útero de onde veio, o Universo magnânimo e austero de onde tudo resultou.

Depois de ler tudo de Sagan, li Reeves, Feynman, Hawking e outros mais que me abriam ainda mais a frincha luminosa do deslumbramento. Li sobre as teorias, as confirmações, as decepções, vidas levadas na angústia das fórmulas solitárias, escritas em folhas brancas perdidas em secretárias desarrumadas.

Kepler olhou os planetas, descobriu órbitas e inventou a ciência moderna. Newton ofereceu a matemática elegante, derivativa e integral, e pelo meio adiantou a gravidade, a força misteriosa que agrega a matéria. Heinsenberg enfiou a cabeça nos átomos de Dalton e Bohr, para nos introduzir o “bug” do principio da incerteza: afinal é impossível dizer que uma partícula está “aqui”, “agora”, e pelos vistos, Deus têm sentido de humor. Planck resolve pegar na tesoura e dividir a energia, o motor do Universo, em bocados que baptizou de “quanta”, nascendo então a mecânica quântica, o drama obscuro e tenebroso da ciência moderna. E Einstein fez explodir a física num referencial em movimento, relativo e sem privilégios, eis portanto que tudo é relativo, e a matéria esconde energia, tem lógica, tem subtileza, e abre a Física para um novo e admirável mundo novo...e pelo meio destes, outros sonharam teorias, viveram vidas de deslumbramento e contemplação, em busca do conhecimento.

Alguém um dia descobriu que todas as galáxias se afastam de nós a grande velocidade, e quanto mais afastadas, mais depressa, como se fugissem. Como se afastam, é porque um dia estavam juntas, e algo, ou alguma coisa, as fez precipitar em todas a direcções, e não só elas, mas o espaço envolvente também. Nasceu a teoria do Big-Bang. Mas na física a cada resposta, nova pergunta, mais penetrante, mais curiosa e difícil de responder.

Se as galáxias se afastam umas das outras em todas as direcções, haverá algo de especial em relação à Terra, para “toda a gente” fugir de nós? Não...algo, algum motor estranho, talvez uma matéria negra, talvez outra coisa, é responsável pela máquina que move o espaço-tempo, e o leva a encher como um balão, e em cuja superfície nos encontramos solitários e deslumbrados. O Universo é encurvado numa 4ª dimensão, nesse sentido, do nosso ponto de vista, não tem principio nem fim, é infinito sem o ser. E o que encurva o espaço-tempo, o tecido do Universo que se expande e estica, a superfície do balão hiper-dimesional onde vivemos? A matéria. A batota cínica de Deus.

Mas algo não bate certo. O Espaço não devia ser simétrico e homogéneo se tudo começou no titânico Big-Bang? Alguma coisa deve explicar a relativa confusão e dispersão de galáxias e matéria escura que encontramos no céu... A resposta tímida foi uma conjectura meio esquizoide, avançada com timidez e reserva: o Universo inflacionário, quer dizer, acelerado no princípio, até aos 10^-35 s depois de ter rebentado, se alguma coisa tivesse de ter acontecido para explicar a aparente desordem lá encima, teve de acontecer até aí, doutra forma, já não percebemos nada.

Aliás, não percebemos nada e duvidamos de tudo, quando o “tudo” é mesmo tudo.

O 1º dever da inteligência é duvidar dela própria, é certo, mas também é preciso ter espírito crítico que evite o caldeirão do disparate e da ignorância, travestida numa mirabolância de mesa de café.

Era bom que o universso acelerasse acima da velocidade da luz, que ela variasse sem percebermos...era óptimo. Mas a cada conjectura, deve-se devolver a humildade da confirmação experimental, ou da concordância das equações e dos conceitos.

Teorias há muitas, mas verdade há só uma, escondida e frágil, dissimulada num buraco negro, esbatida na luz de um quasar distante e misterioso. Mas a porta entreaberta do conhecimento que nos alimenta o fascínio, derrama a luz que nos conduz, que nos fascina.

Uma coisa eu sei: algo me liga ás estrelas. Sou feito das mesmas partículas, compartilho algo com o Sol ou com Andrómeda, com a nebulosa de Orion ou com a estrela de Bernard.

Quando olho as estrelas à noite, sinto-me esmagado pela imensidão e o deslumbramento. Sonho com viagens, com seres exóticos, com mundos que me desafiam de tão estranhos. Sorrio com a beleza e o mistério do Universo. Coloco questões penetrantes, rio-me com as conjecturas.

Sinto-me pequeno, humilde e relativizo: Sou feliz e estou grato de o estar a contemplar como fizeram os meus antepassados, com os quais compartilho o espanto e ainda algumas questões.

E recordo o menino no escuro da noite, que adormeceu com o livro no seu peito, ainda com as páginas abertas.

A matéria que ganhou consciência.

O Universo a sonhar com ele próprio.



(© albatroz, 2005)

Thursday, December 22, 2005

Cavaco, incorporated


Sempre achei Cavaco um candidato fraquíssimo. Personalidade truculenta, uma antipatia natural que espanta de tão ríspida e um discurso vago, contraditório e vazio. E até por isso, por ter perfeita noção das suas limitações, Cavaco evita o confronto, porque sabe que depois dos primeiros 10 min, arrasta-se, vociferando ao seu melhor estilo palavras desconexas e frases elípticas que não dizem nada. Depois dos 1ºs 10 min, Cavaco não argumenta, responde, defende-se, porque na verdade, Cavaco sobe à arena desarmado, sem nada, sem ideias, sem conceitos sobre nada nem alguma coisa, Cavaco não sabe ou não responde, argumenta o óbvio, fala sobre o que todos sabem, e sobre o futuro, invoca uma estratégia difusa que se confunde com tudo.

Mas então, se é assim tão mau, tão básico, porque Cavaco vai à frente? Porque consegue ele vender o saco vazio de ideias? Porque consegue ele falar em círculos sobre nada, e mesmo assim recolher uma aceitação estranha, quase surrealista?

Pouco depois de ter visto o Cavaco num debate na televisão, começou um programa num canal da concorrência chamado “1ª Companhia”. Nele desfilam 7 ou 8 básicos, patetas, simplórios, e o programa consiste, basicamente, em mostrar as suas aventuras, e nos mostrar as suas palhaçadas durante uma pseudo-recruta no exército.

Temos o palhaço-mor, um ex-realizador de filmes pornográficos, a loira mais ou menos burra, o conde da praxe, e o resto do pelotão de celebridades (?). O programa está bem produzido, feito por técnicos rotinados, e resulta.

A 1ª companhia é um programa líder de audiências. Feito com uma competência acima da média, o “show” da recruta recolhe a aceitação do público e o programa vende. Foi bem empacotado, com uma boa caixa. Vende nada, vende uma coisa tão vazia como dislates e peripécias, não pretende mais nada do que isso, e no entanto, é um sucesso. E por ventura o programa dá aos espectadores exactamente aquilo que querem: o básico, o pronto a vestir, o ready-made. Digere-se sem mastigar muito, sem pensar muito nisso.

Hoje em dia a melhor maneira de ganharmos desconfiança é tentarmos vender uma ideia, um conceito sério, alicerçado em factos, uma ideia sólida. As pessoas desconfiam dos que têm ideias. Não estão com paxorra, e rotulam de demagogos. Pensar dá trabalho.

Quem têm “ideias”....é um idiota.

Neste mundo arranja-se inimigos por vender ideias, por ter conceitos e convicções. Neste mundo, somos demagogos se nos armarmos em intelectuais, aliás, se tivermos ideias, se argumentarmos, somos “pseudo”, e não intelectuais.

Com ideias, somos perigosos. A ideia, o conceito, a convicção, são coisas perigosas, porque incontroláveis. E então um gajo com ideias e de esquerda é um perigo. Até prova em contrário, é uma “espécie de Louçã”: uma degenerência do antigo bloco de leste. Pronto, já está, sem pensar muito nisso, caga e anda.

As pessoas de hoje (infelizmente) gostam do básico. O básico, e quanto mais básico melhor, vende e é bom para a saúde. Sobretudo, adoram rótulos, caixas e embalagens. E adoram rotular: Cavaco: O salvador, o dom Sebastião, Soares, ultrapassado e velho, Louça?...Louçã...bom... demagogo, só pode: demagogo e hipócrita. Pronto, sem pensar muito nisso. Como nas arenas, os bons contra os maus, o Porto contra o Benfica, os de riscas azuis contra os vermelhos.

Cavaco podia ser um concorrente da 1ª companhia. Bem vendido e empacotado, cavaco é uma face visível do mundo despido de ideias e desconexo em que vivemos. Cavaco é vazio e frio, sem fundo. Não se percebe bem o que diz, mas têm ideias, não se sabe bem porquê, mas vai ganhar. E se vai ganhar, então vamos todos votar nele. Porque alguém disse.

“Cavaco” podia dar na televisão em “prime-time”, depois do telejornal e antes da telenovela.

Cavaco é fixe, porque é “cool”. Um gajo ouve e “griza-se” com o Cavaco.

Cavaco têm um rótulo: “ O Salvador”, foi-lhe colado por os mesmos que nos vendem outras coisas, no mesmo sitio de sempre. E Cavaco é bom para a saúde. Só a palavra “Cavaco”, diz tudo. Cavaco é “POP”.

O “People” curte bué o Cavaco, bora lá por a cruz. Sem pensar muito nisso.

Caga e anda.


(© albatroz, 2005)

Do outro lado


Hoje acordei triste.

Olhei a janela fustigada pelo vento e pela chuva. Acho que até o céu chora por mim e o vento partilha a minha raiva e a minha fúria.

Levantei-me e cambaleei até ao quarto de banho, e foi então que vi a imagem no espelho.

Alguém me olhava aterrorizado do outro lado.

Um homem, aí com os seus 30 anos, nem gordo, nem magro, com um rosto contraído e um olhar que parecia uma suplica.

Gentilmente, acenei-lhe com a mão na esperança vã de lhe roubar um sorriso.

O homem limpou bruscamente o ressoado do espelho, para me ver melhor. Abriu a torneira, ouviu-se o som da água a correr e o fumo branco do vapor.

Os seus olhos e o seu rosto perderam-se um pouco no nevoeiro.

Aproximei-me mais e pus-me em bicos de pés para ver melhor.


E reparei que o homem, que era eu, limpava as suas lágrimas na água tépida.


(© albatroz, 2005)

Wednesday, December 21, 2005

System Error


Primeiro a ideia era uma nuvem difusa, nascida da necessidade.

Colher o alimento de um país tóxico-dependente de petróleo, movido a disel e já a vapores...e dar razão de ser ás espadas da guerra tecnológica, porque doutra maneira, estariam esquecidas, a ganhar pó...

As armas existem apenas para a guerra. A lógica antiga.

O Policia do mundo é a unificação, o verbo com que se conjuga a ordem internacional, que sustenta a nossa falsa segurança à lei da bomba...

E falsa é a nossa segurança, porque nunca antes nos sentimos tão inseguros.

Depois das torres da arrogância ruírem ante os seus próprios olhos, os EUA embarcaram na diáspora do costume, agora travestida de vingança... mas sempre com a missão antiga: roubar ao mais fraco no lugar mais lógico.

Sim, porque a nação mais poderosa do mundo, também é a mais endividada, e afundada que está em dívidas, foge para a frente, reconquistando o mundo, um paliativo desconexo e irreal.

Mais tarde, veio a mentira.

Colin Powel segurava um saquinho na sede das NU, onde estaria a prova, o Antrax árabe, e a pés juntos jurou que no Iraque habitava um louco sanguinário e um povo numa guerra santa contra os EUA, contra o “nosso” mundo, e alguns acreditaram...

Acreditaram e polvilharam os jornais de colunas de ódio e outros parágrafos que insinuavam uma raiva virulenta contra o povo dos turbantes...a ameaça invisível das armas de destruição maciça, e os Nunos Rogeiros bradavam histéricos a demanda da democracia e da liberdade contra a loucura cega e sem propósito, como se os árabes não fossem pessoas.

Mas maciça era a mentira.

Outros houve que recuaram perante o dislate, e foram crucificados, queimados na praça pública. E dos franceses, nem as batatas fritas, traidores...

Depois disto tudo, depois de ter assentado a poeira: a verdade.

Os mortos.

Os gritos.

As torturas, Abuh Grahib...

E a face escura da mentira que nos foi vendida. E que tivemos que comer como um hamburger que não sabe a nada.

Sentimo-nos culpados, porque somos uma peça da arma que é o medo irracional.

A primeira baixa do Iraque, não foi um árabe descalço, iletrado e com fome...A primeira baixa também não foi um Marine medroso e desempregado...

Quem morreu com as bombas foi a liberdade, fomos todos nós.

A memória esquece, é certo, mas esta nódoa de sangue purulento que escorreu da ferida aberta do médio oriente, contém em si a semente de uma desconfiança, de um ódio impossível de medir, e cada vez mais incontrolável.

Hoje, no Iraque, moram as bombas e os carros armadilhados.

O povo Árabe odeia-nos mais, quer-se vingar de quem tanto os faz sofrer e se recusa a entender a sua cultura, os seus sonhos, a sua história e aquilo que querem para si.

A guerra impossível de ser ganha serviu os mesmos: Os que fazem as espadas tecnológicas e que com elas nos imponhem o medo.

Porque apenas aterrorizados podemos ser controlados e dóceis.

Apenas com medo nos negamos a sonhar e aceitamos o nosso destino, e apenas dessa forma obedecemos.

Mas a história acerta sempre as suas contas, e a factura do ódio, da guerra impossível e do medo infinito, só mais tarde vai ser cobrada.

A talvez só nessa altura vamos poder olhar para trás e tentar entender.

A mentira que explodiu num banho de sangue.

A mentira cirúrgica.

O erro de sistema inexplicável.


(© albatroz, 2005)

O fim do Inverno


Algures no Outono da noite, estendo o braço para as estrelas.
Sei que estás aí, porque te sinto esvoaçar na brisa fria.
O Inverno mora no meu coração.
À minha frente, a noite chora o vento que é frio e triste.

As estrelas formam o teu rosto.
Atrás do horizonte, algo se insinua:
Uma luz ténue, como uma promessa.

Algures na noite, ouço o canto dos pássaros pela primeira vez.
A tua voz ecoa no meu peito e ouço-te em silêncio.
Uma primavera nasce devagar.
À minha frente, a noite adormece e limpa as minhas lágrimas.

Sorris-me das estrelas.
A luz começa numa bolha que se inventa atrás do horizonte
Como um vírus, a vida acorda em mim.

Sei que estás aí, porque já sinto o teu toque quente.
Como quentes eram as minhas lágrimas.
O Verão explode num sopro de luz.

Uma luz que cresce porque se inventa a ela própria.
Abraço-te.

Sei que estás aqui porque te sinto.
Sinto as tuas mãos que inventam o meu mundo.
Sei que vivo porque me amas.
O sol já sorri, meio afundado no horizonte.

A noite foi-se embora.

O Inverno acabou no meu coração.




Amo-te.




(© albatroz, 2005)

O peido em camera lenta


A minha valsa é tocada em dó menor... e parece uma balada triste, intermitente e fora de tom.

O rosto que vejo no espelho de manhã tem um olhar desesperado e gostava de ter alguma resposta para lhe poder dar, alguma coisa, mas como sempre, as palavras morrem na garganta, inúteis.

O mundo para o qual acordo de manhã, vive um sono profundo e hipnótico feito de guerras mentirosas, de desemprego, de doenças virulentas incontroláveis e não tem futuro, nem o quer inventar.

O meu mundo acredita que o que importa é o produto, não as pessoas, e que um numero explica tudo, e tudo se sacrifica por ele, uma percentagem, um défice obscuro. O que importa é frio, está escrito num papel e não respira nem sonha como nós...

A nossa valsa é lenta... melancólica, tocada com angustia.

E todos nos vendemos num reality show patético, um big brother onde nos tentamos ver, desesperados, na esperança vaga de nos percebermos.

Vivemos no medo, aterrorizados pelos terroristas, os magos do nosso destino que nos ofereceram como sendo o inimigo, e mesmo quando nos queremos entregar a alguém e fazer amor, temos a desconfiança de arvorar com isso uma morte lenta e agonizante.

Temos medo, temos muito medo, e por isso queremos fugir, mas não sabemos para onde ou em que direcção.

Logo, logo, temos 30 anos e as duvidas sufocam-nos, apertam devagarinho como um torniquete.

Queríamos perceber, mas algo nos escapa.

Queremos amar, mas não sabemos como.

Queríamos não estar aqui, mas temos uma arma carregada encostada à cabeça, e uma voz que nos manda comer.

Tudo isto como num peido em camera lenta... E flutuando no meio dos salpicos de merda, tentamos nos agarrar a alguém, ou que alguém nos agarre...esticamos o braço e gritamos...

“Amem-me!!! Fiquem comigo...”

Outros passam por nós, perdidos para sempre no meio do esterco.

E temos medo do impacto.

De aterrar e perceber que tudo isto foi para nada.


(© albatroz, 2005)

Tuesday, December 20, 2005

O Enunciado do problema , PARTE 1 - A Economia global, a Europa e o Mundo


Um gigante ergue-se a oriente, o seu tempo chegou e à muitos anos que crescia meio adormecido...ronronando imperceptivelmente.

A China governa o mundo.

Biliões de chineses, pagos a 10 eur por mês, sem férias e sem subsidio de almoço, redefinem o espaço económico mundial.

Movidos por uma massa trabalhadora praticamente infinita e de baixo custo, a China injecta no mercado produtos a preço imbatível, em quantidades intoxicantes. Mas essa massa amorfa e invisível, o povo chinês, sonha, mas está enganado.

O povo chinês acorda estremunhado para um futuro que lhes foi prometido de prosperidade pessoal: Frigoríficos, casas, carros....Play Stations, e tudo aquilo que povoa os seus sonhos, que lhe entra pelos olhos dentro, vindo da Europa e dos EUA: o estilo de vida que sonham para si e para os seus filhos.

Mas engana-se, porque são explorados com uma falsa promessa de algum dia darem vida a esses sonhos. O sistema capitalista e a sua voragem de lucro não quer nada com o povo Chinês, porque esse povo apenas é uma ferramenta para os grandes interesses económicos. No dia em que o povo chinês reclamar melhores salários do que a miséria rasteira que ganham hoje, quando acharem que têm direito a férias e a rendas de casa mais baratas, vão deixar de ser “competitivos”...de ser “ estratégicos” para as empresas sedeadas no seu país, e o logro neo-liberal deste oriente enganado e crente, voltará à 1ª forma e rumará a outras paragens, como sempre...

Este capitalismo selvagem e apátrida das multinacionais, que muitos convencionaram chamar de neo-liberalismo, porque também se apresenta travestido de suporte politico, é como um ser vivo: quando lhe acaba o pasto, logo migra, procura novas paragens fartas em alimento: baixos salários, isenções fiscais e off-shores nebulosos.

A Europa há muitos anos que se encontra minada por esta larva gorda e voraz que trata pessoas como latas de detergente fora do prazo de validade.

Uma multinacional não vê pessoas: vê “colaboradores”, vê “défice” ou lucro...os números fantasmagóricos que nos vendem mas que ninguém percebe, porque não se pode perceber uma mistificação, uma miragem obscura que serve para assustar, para manobrar.

Um neo-liberal capitalista não acredita nas pessoas, e desconfia dos seus sonhos e das suas motivações...e tem horror dos seus anseios, porque são perigosos e desafiam a ordem imposta do numero frio...de um défice que se tem de combater, ou de um lucro sacrossanto que se tem de alcançar a todo o custo. Tudo vale a pena, quando a alma é pequena.

Quando houve hipótese da Turquia entrar na Europa, logo a franja neo-liberal Europeia, rejubilou: novo mercado, novas possibilidades. Mas este “futuro” que a larva neo-liberal desenha para si, assenta sempre no mesmo: Baixos salários, possibilidade de produzir o mesmo pagando metade e tendo o dobro do lucro. Que fazem? Simples, fecham em Portugal para abrir na Turquia, na Ucrânia ou na Republica das Bananas Unidas, onde entretanto já foi vendido ás pessoas (aos “colaboradores” indígenas) um sonho impossível: melhores condições de vida, melhor futuro para as suas vidas.

Os capitalistas Neo-liberais Europeus, não querem pôr a Turquia como o resto da Europa, querem por o resto da Europa como a Turquia.

Existe por isso a fórmula do costume: Despedir, para os que ficarem trabalharem o dobro, recebendo o mesmo, senão fecha-se e abre-se num sitio onde 15 eur são uma fortuna irrecusável.

Mas estará isto certo? Que futuro nos promete quem nos vende uma coisa destas?

Numa empresa moderna trabalham 10 quadros com salários de príncipe da Pérsia, rodeados por uma turba de jovens contratados a prazo, sem futuro, receosos e explorados, que por sua vez alimentam a larva e a fazem inchar com o lucro de baixo custo que entretanto geram.

A equação é simples, mas a solução é o futuro que nos é roubado em troca de uma suposta “ordem económica mundial” que não existe a pensar em nós, que não foi pensada para nós, mas para uma elite instalada e poderosa de administradores nomeados e políticos pactuantes, pagos pela sua associação com a visão neo-liberal.

A Audi deu lucro, os Bancos tem receitas abissais...e a Ferrari teve dos melhores anos de sempre. Nunca vi tantos carros de marca topo de gama na A1, e pergunto: qual crise?

A crise é para os de sempre: Para mim, para os da minha idade, para a Inês, para a Gabriela...para esta juventude desenraizada culturalmente, despida de vontade para reagir a esta anestesia global, à pastilha do mundo globalizado, que acredita num numero e não na mão que o escreveu no papel.

A Europa não é a VolksWagen, não é a Ericsson, não é a Opel nem a Nokia.

A Europa são as pessoas.

As gentes que lá vivem... os trabalhadores da VW, da Nokia, da Ericssom. É a massa humana que ergueu este continente e o meu país, e que agora se sente enganada.

A Europa sou eu e os meus sonhos.

A Europa...o mundo, é a Joana, os seus olhos e o seu sorriso, a Diana , o Pedro, o meu irmão, a Inês, o João, o Paulo....


A Europa e o Mundo somos nós.

São as pessoas.


(© albatroz, 2005)

Prazer em conhece-lo. Presumo que saiba o meu nome....


A viagem começa num lugar óbvio: um rochedo junto ao mar. Um lugar fustigado pelos ventos e por marés que não perdoam.

Ao olhar o horizonte, interrogo-me sobre mim.

Se desce-se agora aqui uma nave extra-terrestre, um disco voador hi-tech alienígena, e se de lá de dentro saí-se uma criatura de outro mundo... Se ela se aproximasse de mim para, digamos, me pedir um cigarro e me perguntar quem eu era...

Que resposta dava?

Poderia resumir tudo numa frase?

- Sou um gajo porreiro...tenho as minhas merdas.

A criatura ficaria um pouco espantada com a minha resposta.

Acendia o cigarro e afastava-se na direcção do disco voador.

- Isso um dia ainda te vai matar. – Diria eu.


(© albatroz, 2005)

O Começo.


No princípio era o verbo que ninguém conseguiu conjugar.

Depois de começar, desenhou a elipse que seria a sua vida.

Voltava ao princípio, depois de acabar...perdia-se algures no caminho.

O mundo rodava sobre ele próprio e eu ficava tonto.

Queria chegar antes de ter começado e chegar ao fim antes de passar pelo meio.


(© albatroz, 2005)