
Um gigante ergue-se a oriente, o seu tempo chegou e à muitos anos que crescia meio adormecido...ronronando imperceptivelmente.
A China governa o mundo.
Biliões de chineses, pagos a 10 eur por mês, sem férias e sem subsidio de almoço, redefinem o espaço económico mundial.
Movidos por uma massa trabalhadora praticamente infinita e de baixo custo, a China injecta no mercado produtos a preço imbatível, em quantidades intoxicantes. Mas essa massa amorfa e invisível, o povo chinês, sonha, mas está enganado.
O povo chinês acorda estremunhado para um futuro que lhes foi prometido de prosperidade pessoal: Frigoríficos, casas, carros....Play Stations, e tudo aquilo que povoa os seus sonhos, que lhe entra pelos olhos dentro, vindo da Europa e dos EUA: o estilo de vida que sonham para si e para os seus filhos.
Mas engana-se, porque são explorados com uma falsa promessa de algum dia darem vida a esses sonhos. O sistema capitalista e a sua voragem de lucro não quer nada com o povo Chinês, porque esse povo apenas é uma ferramenta para os grandes interesses económicos. No dia em que o povo chinês reclamar melhores salários do que a miséria rasteira que ganham hoje, quando acharem que têm direito a férias e a rendas de casa mais baratas, vão deixar de ser “competitivos”...de ser “ estratégicos” para as empresas sedeadas no seu país, e o logro neo-liberal deste oriente enganado e crente, voltará à 1ª forma e rumará a outras paragens, como sempre...
Este capitalismo selvagem e apátrida das multinacionais, que muitos convencionaram chamar de neo-liberalismo, porque também se apresenta travestido de suporte politico, é como um ser vivo: quando lhe acaba o pasto, logo migra, procura novas paragens fartas em alimento: baixos salários, isenções fiscais e off-shores nebulosos.
A Europa há muitos anos que se encontra minada por esta larva gorda e voraz que trata pessoas como latas de detergente fora do prazo de validade.
Uma multinacional não vê pessoas: vê “colaboradores”, vê “défice” ou lucro...os números fantasmagóricos que nos vendem mas que ninguém percebe, porque não se pode perceber uma mistificação, uma miragem obscura que serve para assustar, para manobrar.
Um neo-liberal capitalista não acredita nas pessoas, e desconfia dos seus sonhos e das suas motivações...e tem horror dos seus anseios, porque são perigosos e desafiam a ordem imposta do numero frio...de um défice que se tem de combater, ou de um lucro sacrossanto que se tem de alcançar a todo o custo. Tudo vale a pena, quando a alma é pequena.
Quando houve hipótese da Turquia entrar na Europa, logo a franja neo-liberal Europeia, rejubilou: novo mercado, novas possibilidades. Mas este “futuro” que a larva neo-liberal desenha para si, assenta sempre no mesmo: Baixos salários, possibilidade de produzir o mesmo pagando metade e tendo o dobro do lucro. Que fazem? Simples, fecham em Portugal para abrir na Turquia, na Ucrânia ou na Republica das Bananas Unidas, onde entretanto já foi vendido ás pessoas (aos “colaboradores” indígenas) um sonho impossível: melhores condições de vida, melhor futuro para as suas vidas.
Os capitalistas Neo-liberais Europeus, não querem pôr a Turquia como o resto da Europa, querem por o resto da Europa como a Turquia.
Existe por isso a fórmula do costume: Despedir, para os que ficarem trabalharem o dobro, recebendo o mesmo, senão fecha-se e abre-se num sitio onde 15 eur são uma fortuna irrecusável.
Mas estará isto certo? Que futuro nos promete quem nos vende uma coisa destas?
Numa empresa moderna trabalham 10 quadros com salários de príncipe da Pérsia, rodeados por uma turba de jovens contratados a prazo, sem futuro, receosos e explorados, que por sua vez alimentam a larva e a fazem inchar com o lucro de baixo custo que entretanto geram.
A equação é simples, mas a solução é o futuro que nos é roubado em troca de uma suposta “ordem económica mundial” que não existe a pensar em nós, que não foi pensada para nós, mas para uma elite instalada e poderosa de administradores nomeados e políticos pactuantes, pagos pela sua associação com a visão neo-liberal.
A Audi deu lucro, os Bancos tem receitas abissais...e a Ferrari teve dos melhores anos de sempre. Nunca vi tantos carros de marca topo de gama na A1, e pergunto: qual crise?
A crise é para os de sempre: Para mim, para os da minha idade, para a Inês, para a Gabriela...para esta juventude desenraizada culturalmente, despida de vontade para reagir a esta anestesia global, à pastilha do mundo globalizado, que acredita num numero e não na mão que o escreveu no papel.
A Europa não é a VolksWagen, não é a Ericsson, não é a Opel nem a Nokia.
A Europa são as pessoas.
As gentes que lá vivem... os trabalhadores da VW, da Nokia, da Ericssom. É a massa humana que ergueu este continente e o meu país, e que agora se sente enganada.
A Europa sou eu e os meus sonhos.
A Europa...o mundo, é a Joana, os seus olhos e o seu sorriso, a Diana , o Pedro, o meu irmão, a Inês, o João, o Paulo....
A Europa e o Mundo somos nós.
São as pessoas.
(© albatroz, 2005)